Antônia olhando o espelho: O que aprendi com a Bell Hooks¹ sobre esse tal “amor”
Rosane Lucena, Psicanalista, Servidora Pública no Sistema Prisional do Estado do RS.
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Antônia olhando o espelho resolveu perdoar o passado.
Ela escolheu perdoar o ex-amor, o ex-marido, os ex-amigos, a família, os desamores.
Como quem solta uma bagagem pesada.
Lembrou daquele dia em que subia a rua com os braços cheios de sacolas, todas encaixadas alça sobre alça, cortando a pele sobre a blusa.
Soltou como numa expiração certeira.
Soltou aquele que a traiu, a desilusão amorosa mais recente, as mentiras e enganos.
Antônia finalmente entendeu que, perdoando o passado estaria perdoando a si mesma.
Já era hora de se desculpar pelas escolhas mal feitas, pelos erros consecutivos, por ter se abandonado e por ter se colocado em segundo (s) lugar tantas vezes.
No passado havia se culpado por não ter pensado melhor. Não havia escutado sua intuição. Antônia entendeu que perdoar, também é libertar aquilo que passou e que não vai voltar e que se voltasse nem se sabe se seria aceito. Pensou que talvez nem tenha tanta certeza de que realmente um dia quis, porque a Antônia não era Antônia. Não era a Antônia de agora. Além disso, Antônia havia se perguntado sobre quantas desilusões amorosas ainda precisaria viver para continuar (re) escrevendo sobre a sua vida, e que (re) escrevendo sobre a sua vida, sobre as suas desilusões, ela crescia e aprendia um pouco mais. E afinal isso era viciante. Antônia perdoou seu pai, perdoou o amor próprio que havia lhe faltado, e perdoou a si mesma, ainda que de alguma maneira, Antônia, nunca tenha existido².
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O encontro com a obra de Bell Hooks nem de longe pode ser suave.
A autora desconstrói o amor, no momento em que o tira do “trono” da emoção, passivo, e o coloca como uma ação.
Nesse momento ela quebra a banca.
A possibilidade de entender o amor, não somente como fundo romântico, mas sim como parte do tecido social, como base constitutiva do sujeito, das relações, das instituições, já é tarefa dos estudos psicanalíticos.
A maneira como aprender a amar e sermos amados, nos coloca e nos da um lugar no mundo.
Num viés da psicanálise Lacaniana, podemos substituir essa relação com o AMOR como uma ação, descrito pela Bell Hooks, pela relação do sujeito com a FALTA.
“Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”
Quando Lacan faz a transmissão sobre a transferência, ele pondera essa FALTA, uma possível relação com o objeto a, e para isso utiliza também da literatura, mais especificamente a filosofia, como referência para sua análise do tema. Fazendo referência ao diálogo do livro O Banquete, de Platão, articula conceitos fundamentais da psicanálise, como o desejo, o amor, o objeto a e a função do analista.
Se aproximar desses conceitos Lacanianos, em uma vida distante de uma relação com a psicanálise, talvez possa causar uma sensação de desamparo, de desesperança. Talvez seja essa a “montagem” possível no discurso da Bell Hooks.
Serão diversas as passagens Lacanianas que poderiam ser utilizadas aqui como referência, ainda mais considerando a elaboração do discurso vivo como transmissão em seminários, e não como teoria cientifica. Digo isso, pois a transmissão em seminários possibilita o contato com uma palavra viva, fluida, e é importante observar que tudo que é feito com a palavra, também pode ser desfeito com a palavra.
No seminário 8 sobre os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan abre o capítulo X, opinando a transferência como um afeto, sendo esta qualificada vagamente de positiva ou negativa (pág. 119)³. Essa relação transferencial, independente de sua polaridade, possibilitará um lugar de existir, aqui vale ressaltar a máxima: não existe sujeito sem um outro (minúsculo).
Pensar nas novas perspectivas sobre o amor, como proposto pela Bell Hooks, é começar a pensar no amor como uma ação, em vez de um sentimento. Aqui inauguramos um ato, em uma passagem do livro a escritora provoca: “Somos com frequências ensinados que não temos controle sobre nossos sentimentos. Contudo, a maioria de nós aceita que escolhemos nossas ações, que a intenção e o desejo influenciam o que fazemos” (pág. 55)
Para aprender com a Bell Hooks sobre o amor, considerando as novas perspectivas sugeridas, será necessário desconstruir as certezas sobre o termo. Colocar o amor em suspensão, para poder analisá-lo, desmembrá-lo e propor novos acordos.
Gosto de trazer essa experiência à luz do encontro transferencial com o analista. Talvez por ter sido atravessada por esse movimento. Coloquei o amor em ação no encontro com meu analista. Por diversas vezes analisei essa ação, com base na análise discursiva da falta, do desejo e do encontro com o Outro (maiúsculo).
O processo de análise já havia me aberto novas perspectivas, e foi enriquecedor encontrar na literatura uma continuidade desse movimento, por meio de uma leitura acessível a todas e todos.




