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Sarau Poético – Texto 16: A prisão e a loucura como lugares de existir: o que não produz, também existe

A prisão e a loucura como lugares de existir: o que não produz, também existe

Psicanalista Rosane Wojciechowska Lucena

As sociedades modernas sustentam-se sobre dispositivos de nomeação, classificação e normatização. A partir de um padrão normativo, estabelecem-se nomes corretos, tempos adequados, corpos funcionais e subjetividades adaptáveis. O valor da existência passa a ser medido pela produtividade, pela eficiência e pela capacidade de responder às exigências do laço social capitalista. Nesse contexto, existir deixa de ser condição e passa a ser performance. Michel Foucault (1926–1984) sugeriu que o modelo manicomial, para além de um papel negativo de exclusão, também teria cumprido uma função positiva de “organização” social, alinhada a um modelo de produção.

Freud, entretanto, inaugura uma ruptura decisiva ao afirmar que o eu não é senhor em sua própria morada. A subjetividade é atravessada por forças inconscientes que escapam à razão, ao controle e à lógica da utilidade. O sujeito freudiano é, desde sua constituição, dividido, faltante e atravessado por conflitos que não se resolvem pela adaptação normativa. É justamente esse resto — aquilo que não se ajusta — que a civilização tenta silenciar.

A loucura, historicamente, ocupa esse lugar de exclusão. Aquilo que não se submete à racionalidade produtiva é nomeado como desvio, falha ou patologia. O mesmo ocorre com os corpos encarcerados: a prisão opera como tecnologia de gestão do excesso, do indesejável e do improdutivo. Nome transforma-se em número, história em prontuário, desejo em infração. Trata-se de um dispositivo que não apenas priva de liberdade, mas também produz silenciamento  subjetivo.

É nesse ponto que a figura de Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade (1740–1814), torna-se emblemática. Aristocrata francês, Sade passou grande parte de sua vida encarcerado — em prisões e instituições psiquiátricas — em razão de seus escritos e de escândalos considerados imorais para sua época. Foi no cárcere que produziu parte significativa de sua obra, como Os 120 dias de Sodoma, redigido na Bastilha. Sua escrita radical explora os limites do desejo, da moral e da violência, expondo aquilo que a civilização busca reprimir. Frequentemente associado à loucura e à perversão, Sade encarna o sujeito que, por não se ajustar à norma, é confinado. No entanto, sua produção evidencia justamente uma potência de expressão: mesmo sob confinamento, persiste uma elaboração discursiva intensa. Sua obra permite pensar o cárcere e a loucura não apenas como espaços de silenciamento, mas também como lugares onde a subjetividade insiste e se radicaliza, revelando aquilo que escapa à domesticação social.

A psicanálise, desde sua origem, posiciona-se de forma dissonante frente a essa lógica. Ao conceber o sintoma não como erro a ser corrigido, mas como formação de compromisso

  • uma tentativa singular de lidar com o conflito psíquico —, Freud desloca a questão da normalização para a escuta. O sintoma passa a ser entendido como uma solução possível, ainda que precária, frente às exigências do laço social e às renúncias impostas pela civilização, conforme desenvolve em O mal-estar na civilização.

Esse deslocamento ético encontra ressonância na arte. Artistas que viveram à margem

  • como Van Gogh, ou produções vinculadas à loucura e ao confinamento — revelam que aquilo que não produz segundo os parâmetros do capital pode, ainda assim, produzir sentido, linguagem e ruptura. A arte, assim como a psicanálise, sustenta o enigma, o não-saber e a falha como potência, recusando-se a transformar a experiência humana em mercadoria ou desempenho.

No cárcere e na loucura, o que persiste é justamente essa dimensão irredutível do sujeito: sonhos que atravessam a noite, lembranças que retornam, palavras que escapam ao controle institucional. Quando há escuta — não apressada, não diagnóstica, não corretiva — produz-se uma fissura no discurso da mestria. Falar, nesse contexto, torna-se um ato ético e político. E escutar, mais ainda.

Nesse sentido, a ética da psicanálise não promete cura, felicidade ou adaptação plena. Ela sustenta o desconforto estrutural da existência, recusando-se a oferecer manuais ou soluções universais. Trata-se de uma ética do desejo, que aposta na responsabilidade subjetiva e na singularidade como resistência frente à homogeneização.

Talvez seja justamente nas margens — entre a prisão e a loucura, entre a exclusão e a criação — que o existir se torne possível fora da lógica da máquina. Quando romper com a realidade normativa torna-se a única via para continuar existindo, a psicanálise e a arte operam como espaços de inscrição do sujeito, afirmando que o que não produz, ainda assim, existe.

Referências Bibliográficas

  • FOUCAULT, Michel. História da loucura na Idade Clássica. São Paulo: Perspectiva.
  • FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes.
  • FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930).
  • FREUD, Sigmund. Uma dificuldade no caminho da psicanálise (1917).
  • SADE, Marquês de. Os 120 dias de Sodoma.
  • SADE, Marquês de. Justine ou os infortúnios da virtude.
  • LACAN, Jacques. Seminário, livro 7: A ética da psicanálise.

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