Transcrição por Aristela Barcellos de Andrades
02/12/1966 – Discurso a L’O.R.T.F – Esta entrevista foi transmitida em 2 de dezembro de 1966 nas ondas de rádio no quadro das Matinês de France-Culture, durante o programa de Georges Charbonnier Sciences et Techniques, por ocasião da publicação dos Escritos. Foi originalmente publicado com a autorização de Jacques Lacan e Georges Charbonnier na revista Recherches n° 3/4, páginas 5-9, em 1967.
JACQUES LACAN – Respondo aqui a uma questão que Georges Charbonnier me fez sobre o Manifesto que constitui o discurso que data de 1953 e que se chama meu Discurso de Roma, lugar propício, na verdade, ao desfecho da psicanálise como ciência.
Palavra e linguagem, sim, estão com esse discurso no centro desses Escritos que são os de um psicanalista.
Fui chamado pelas condições difíceis que encontrou o desenvolvimento dessa prática na França, para tomar uma posição que é uma posição de ensino.
Esta posição parte dos fatos, e para isso é necessário que ela retorne.
Dos fatos, isto quer dizer, fatos examinados para ver em que eles consistem: isto é, ainda fatos cientificamente estabelecidos.
Mesmo sem o saber, todos agora consideram os fatos, o que por muito tempo foi apenas pura e simples refutação: – aquilo que se chamava os atos perdidos –; igualmente para o que se tinha reduzido ao alcance de objetos curiosos que um amador fazia valer com um golpe de revés: os sonhos. Observa-se que todo o mundo conhece o nome de Freud, graças ao qual a nossa ideia das coisas se completou assim. Suspeita-se ainda que para o chiste, Freud trouxe algo que já não permite considerar o efeito do riso como fútil, e que por isso se tornou um fato digno de uma outra consideração da puramente filosófica.
Sobre o que se baseia esta mudança?
Que se veja nos textos originais, nos textos do próprio Freud, não naqueles das sombras felizes que são colocadas a profetizar de sua boa notícia, nem dos operadores que lhes sucederam: veremos que esses fatos em Freud são estabelecidos como os fatos da linguagem.
Os sonhos se traduzem como uma versão da faculdade, graças a um dicionário que cada um tem em sua cabeça e que se chama associação livre: associação livre de quê? do que ele lhe diz.
Mas não são essas coisas aqui que dão sentido para Freud, mas os pontos de ênfase que se destacam de um texto e um tipo de decalque no qual ele acrescenta palavra por palavra, frase sobre frase, o verbal sobre o verbal, isso até ao trocadilho.
Os obtusos agora dizem que se trata aí do pré-consciente. É justamente essa função que o atormenta, esse pré-consciente, do que lhe faz sentir, Freud o formula nesses termos, em que o pré-consciente encontra palavras sobre as quais ele não tem controle.
De onde eles vêm? Precisamente do inconsciente, onde ele habita como recalcado, Freud não diz de outra forma.
Que estas palavras não estejam à deriva, isto é, que a sua deriva seja apenas de uma lei das palavras – de uma lógica radical que tento estabelecer, isto vai para uma revisão total de tudo o que, até aqui, se pôde pensar do pensamento.
Digamos que o pensamento não pode mais ser o sujeito, no sentido legado pela filosofia. A saber, a função da consciência, tal como ela se torna na ideologia evolucionista, bem como, no idealismo existencialista, em dois sentidos aliás impossível de se juntar, a razão de ser do mundo.
Não há nada a fazer contra o evolucionismo: o homem continuará acreditando ser a flor da criação, é a crença fundamental disso que o constitui como ser religioso. Do mesmo modo, é necessário que a febre existencialista cubra um momento, aquele após a última guerra, onde a consciência de todos e de cada um não tinha muito bom aspecto. Toda uma juventude suportou o seu lazer forçado de se sentir fortemente numa situação, é uma forma de oração. A cabala dos devotos não é onde a denunciam aqueles que falam de humor, isso é para dizer erradamente.
Tudo isto não tem nenhuma razão para parar o movimento da ciência que consiste sempre em inaugurar um cálculo onde seja eliminado qualquer preconceito desde o início.
Depois disso, o cientista/estudioso só tem que seguir. Seu inconsciente não deixará o cálculo parar, justamente porque os pressupostos do cálculo deixaram em branco o lugar onde ele poderá jogar.
Pode-se surpreender aqui que eu pareça desconhecer a parte da experiência, no sentido físico em que esta palavra ressoa, mas é justamente que não a desconheço: a experiência do inconsciente tomada ao nível onde a coloco, não se distingue da experiência física. Ela também é externa ao sujeito, este sendo tomado no sentido tradicional. Eu o designo em vez do Outro: o inconsciente é o discurso do Outro, é a minha fórmula.
É estruturado como uma linguagem: ‒ o que é a pleonasma necessidade para me fazer ouvir, já que a linguagem é a estrutura.
O inconsciente não é pulsação obscura do chamado instinto, nem coração do Ser, mas apenas seu habitat. Não só a linguagem é um meio também real como o mundo exterior.
Mas é necessário ser também cretinizado como são as imaginações onde são constituídas até aqui, a teoria do conhecimento e os supostos métodos concretos da educação, para iludir este fato massivo (mas justamente só se torna um fato uma vez suportado de uma condição científica) que o homem cresce ‒ faz seu crescimento ‒ tanto imerso em um banho de linguagem quanto em um ambiente dito natural.
O banho de linguagem o determina antes mesmo que ele nasça. Isto por intermédio do desejo em que seus pais o acolhem como um objeto, quer eles queiram ou não, privilegiado. O que o menor despertar clínico permite vislumbrar em suas consequências incalculáveis até agora, mas sensíveis em todos os seres, e o que ignoram as manobras do religioso como do médico concernente a regulação dos nascimentos.
Ora o desejo não é a “paixão inútil”, onde se formula a impotência para pensar, dos teóricos da intenção existencial.
O desejo é propriamente a paixão do significante, ou seja, o efeito do significante sobre o animal que marca e cuja prática da linguagem faz surgir um sujeito ‒ um sujeito não simplesmente descentrado, mas destinado a sustentar apenas que um significante que se repete, isto é, como dividido.
Daí esta outra fórmula: o desejo do homem (se podemos dizer) é o desejo do Outro. No Outro é a causa do desejo, de onde o homem escolhe como permanece.
Tudo isso se enuncia em uma sequência científica a partir do momento em que há uma ciência da linguagem também fundada e segura quanto a física, o que é o caso em que está a linguística ‒ é o nome desta ciência ‒ de ser considerada em todos os lugares pelo que é o lugar o campo humano como uma ciência piloto.
Ouviu-se que para o “humano” e para o “homem”, colocamos aspas na medida em que no que representam estes termos já está presente o efeito da linguagem, e que, portanto, devem permanecer em suspenso.
As coisas aparecem sob um aspecto completamente diferente em mim, onde se diz que se trata de revelar a estrutura do desejo, e isto como justamente o sexualiza a impotência da linguagem para dar razão ao sexo.
As coisas são também mais honestamente colocadas quando não se promete com o mesmo ímpeto o levantamento de tal interdição inconsciente que entrava a prática sexual, e a solução do mundo de problemas que levanta a relação do homem e da mulher no menor conjungo.
O que eu digo aqui, todo mundo sabe, mas cada um se preocupa mais facilmente com um remendar das superstições mais antiquadas.
Não se pode fazer nada e o mau uso de toda a verdade é o seu mais comum empecilho. Meu livro só menciona isso incidentalmente.
Meus Escritos reúnem as bases da estrutura numa ciência que está sendo construída ‒ e estrutura quer dizer linguagem ‒ na medida em que a linguagem como realidade fornece aqui os fundamentos.
O estruturalismo durará o que duram as rosas, os simbolismos e os Parnasses: uma temporada literária, o que não quer dizer que esta não será mais fecunda.
A estrutura, por sua vez, não está perto de passar porque se inscreve no real, ou melhor, nos dá uma chance de dar um sentido a essa palavra de real, além do realismo que, socialista ou não, é sempre apenas um efeito de discurso.
Se mantenho o termo de sujeito para o que constrói esta estrutura, é para que não permaneça nenhuma ambiguidade sobre o que se trata de abolir, e que se abolira, a ponto de seu nome ser reatribuído ao que o substitui.
E eu ainda não teria publicado esta coletânea dos meus Escritos, se o que nela se emite, e especialmente há 15 anos, de ser recebido por mim do lugar do Outro onde se inscreve o discurso daqueles que ouço e, nos termos onde cada psicanalista reconhece os mesmos que a cada semana lhe fornece o meu seminário, não tinha acabado de correr sozinho fora do campo onde se pode controlá-lo. Apesar de mim, devo dizê-lo, mas não sem razão, pois neste ensinamento está em jogo o destino que para todos reserva o futuro da ciência ‒ a qual também corre, e bem à frente da consciência que temos dos seus progressos.
Eu precisava por estes Escritos colocar uma barreira às concupiscências agora em curso dos falsificadores sempre de serviço sob a bandeira do Espírito.




