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Sarau Poético – Texto 14: Que amor é esse que per (verte)?

Que amor é esse que per(verte)?

Naiana Gomes da Silva

Uma boa noite a todos os aqui presentes, para mais uma edição do nosso Sarau Poético! Fico muito feliz, em mais uma vez poder compartilhar com vocês esse momento de trocas e aprendizado sobre as palavras e a psicanálise. Sem mais delongas, vou tentar expressar o que venho pensando sobre o tema da perversão que tanto tem me atravessado este ano.

Minha intenção não será expor um texto teórico e prático sobre a psicanálise e a perversão, mas tenho a intenção de escrever palavras que possam responder, a partir da minha experiência com a psicanálise e do que tenho me deparado e pensado sobre a questão do feminino atravessado pela perversidade, em articulação com o que seria da ordem do amor. 

Quando escolhi o título para enviar para a divulgação do Sarau Poético, confesso que não me dei conta do quanto ele era difícil de responder e mais, por quê, eu estava me fazendo essa pergunta? Irei me arriscar a esboçar uma resposta e agradeço as contribuições que irão surgir, pois eu espero que vocês me ajudem nessa ousadia.

Sobre o amor, convenhamos, é singular a cada um de nós, tomarei primeiramente como referência o amor romantizado, aquele que escutamos dos contos de fada quando éramos crianças, com finais felizes, os das teledramaturgias que entre encontros e desencontros dos mais diversos também acabavam em finais felizes, mas de que finais felizes se trata neste amor?

De finais onde geralmente o protagonista ou a protagonista. depois de muito sofrimento, acabam por ficarem juntos depois de uma mudança muito significativa, depois do arrependimento, perdas… Tipo novela da globo, que eu assistia a mais de dez anos atrás, porque hoje não as assisto e acredito que ainda deva ser assim, com mais reviravoltas “surpreendentes” dos personagens. Coloco surpreendentes entre aspas, porque na ficção das telenovelas tudo é possível.

Mas não só nas telenovelas e nos contos de fadas, estamos vivendo tempos onde essa ficção está cada vez mais próxima da realidade, onde o tudo é possível vem nos convocar a olhar sobre como estamos buscando lidar com o nosso sofrimento e diferença diante do mundo real e também nas relações amorosas e com nós mesmos.

A cultura vem se transformando com o apelo de que podemos ter tudo o que “quisermos”, de fazer tudo o que quisermos sem consequências ou abdicação de nada. A pouco tempo estive em um congresso, no Recife, do Centro de Estudos Freudianos e escutei muito sobre como nós sujeitos estamos lidando com o consumo e as implicações dessa relação no campo subjetivo. As medicações, por exemplo, eram pensadas e produzidas a partir de uma doença que surgia e precisava ser tratada. Hoje existe a pílula da felicidade, pois não podemos mais ficar tristes ou introspectivos por um evento que pode nos acometer. O que a cultura espera de nós é que estejamos emocionalmente bem e produtivos, para não perder tempo, seja em função do mercado capitalista ou mesmo pelo estranhamento que alguém causa quando expressa as suas emoções a um outro sujeito ou meio social que não reconhece essa legitimidade por não se questionarem sobre esse efeito em si mesmos.

Esses efeitos podem ser os mais diversos, partindo de sintomas emocionais no campo subjetivo como ansiedade, angústia, depressão, irritabilidade, pânico etc., no corpo, dependências químicas e físicas e no campo social, pois se o sujeito não conseguir responder ao que lhe é demandado da cultura, nessa lógica de pertencimento a um lugar a qualquer custo, ele entra em adoecimento. Em casos mais graves, podendo submeter outros sujeitos de forma violenta, a lhe dar condições para que se possa encontrar a satisfação como condição ao não sofrer.

Corpos estão sendo mutilados para que se chegue ao ideal de beleza que é produzido, centros de estéticas mais avançados, vendem pacotes de beleza como sinônimo de saúde. Os procedimentos são os mais diversos, desde de harmonização facial a introdução de substâncias no corpo para que chegue a um corpo Outro. Onde está a saúde nisso? Ter um corpo único é a diferença de cada um de nós, mas não se quer saber dele se ele não estiver de acordo com esse ideal harmônico, vestido e da cor que se espera para daí ser desejado e amado? E ter assim, um lugar de valor? Mas afinal, quem dita esse valor? O sujeito ou outro? Bem, nessa perspectiva o Outro da cultura, e se somos seres atravessados por ela, acabamos por responder a essa demanda também, a partir de nossa própria história.

Hoje, temos que ser todos iguais, temos que nos sentir da mesma forma, ou ainda de forma alguma. Continuando, estendo isso às relações amorosas, vejo cada vez mais depoimentos e expressões de mulheres que expõem as suas experiências de apagamento subjetivo nas relações com seus parceiros que me fazem pensar também, nos ideais de relações amorosas. Atualmente, tem-se falado muito na palavra narcisismo para dizer dessas relações, onde mulheres se submetem a situações difíceis juntos a seus parceiros para viver um romance de novela.

Bom, nas novelas como eu disse, tudo era possível, mas e na vida real? Como essas relações estão ocorrendo? Que lugar cada um ocupa, que lugar nós mulheres por vezes nos colocamos e somos convocadas a estar, para viver esse ideal? Se não nos questionarmos sobre o nosso desejo, sobre o que de fato falta a nós e o que de fato poderia ser a possibilidade de produzir formas mais interessantes de alcançar o que se busca… o amor?, podemos nos distanciar cada vez mais sobre o que de fato o amor significa para cada uma.

São questões inquietantes, nosso lugar na sociedade e na cultura vem se transformando ao longo do tempo e que bom! Não somos mais apenas corpos, mães, dona de casa e recatadas, podemos ser se quisermos, e muito mais, mas é uma escolha que podemos fazer ainda que tenhamos que lidar com consequências ainda desafiadoras, como o preconceito machista ainda vigente dos homens, assim como de nossas semelhantes também, porque existe mulheres que se identificam ainda com esse estigma patriarcal, por se identificarem talvez? Por medo de represália do parceiro?, da família?, da sociedade? do que ela mesma poderia fazer por si mesma?, e ainda amar e ser amada? não sei responder, talvez a resposta esteja na própria pergunta para algumas ou muitas de nós ou podem ser outras perguntas, e que bom! Porque, isso nos possibilita habitar e circular em lugares que de fato possam nos satisfazer e dizer em nome próprio quem somos. Amando, reconhecendo a nós mesmas como seres de desejo, assim como o outro. E, a partir disso, como aceitamos sermos amadas, porque temos essa escolha!   

Penso em trazer nesse viés do que se busca consumir também no campo do amor, pois a troca que seria a possibilidade de ambos os parceiros se satisfazerem, onde um implica o seu desejo e o outro também, na tentativa de partilhar a satisfação, o que se vê é busca individual de um dos lados, muitas vezes submetendo o outro a ocupar apenas o lugar de objeto que o satisfaça, mantendo-o ali para aplacar a sua falta. E, se houver uma recusa, o parceiro é jogado fora por não mais atender a esse jogo perverso. Se pensarmos no amor romantizado das telenovelas ou mesmo dos contos de fada, o que se vê é a mulher frágil e violentada que vem a assumir esse lugar de satisfação das mais diversas montagens perversas, abrindo mão de si, por acreditar que esse é o caminho para se encontrar a felicidade ou o que merece frente a sua história.

A perversão se encontra na medida onde o sujeito é apagado e se encontra apenas no lugar de objeto de satisfação de um outro, não há mais a possibilidade de diferença e partilhamento de nada além do ganho individual sem consequência alguma. Essa é a configuração que tenho percebido como imperiosa hoje, no campo individual e social.  O que interessa e tem valor é a própria busca por satisfação. Mas, sabemos a partir da descoberta freudiana que não há objeto que nos satisfaça por completo, que só podemos encontrar a satisfação de forma parcial, o que nos leva a continuar a buscar na vida, sentidos que podem aplacar o mal estar frente a própria vivência, mas, jamais cessá-lo, pois é a falta que impulsiona a vida.

No jogo do amor, não há completude, seja do lado de quem busca encontrar o amor que complete e atenda ao ideal de amor, sem conflitos e diferenças, como também daquele que instrumentaliza o amor como forma de satisfazer a si próprio. O que se perde e se ganha atendendo a esse apelo? Poder pertencer a um lugar pré determinado pela cultura? A que se abre mão,  abrindo mão de si? E até mesmo do outro? Por que se o outro também não estiver nesse lugar ideal, esperado, o que fazemos,  o que se tem? O que surge daí?

Estar numa relação significa o que afinal? Eu te satisfaço? Frente a um ideal de corpo?E que corpo é esse?De verdade ou fictício? E tu, o que fazes com esse corpo? O que faço com esse corpo, o teu? Será que existe corpo? Que seres são esses? Que sujeitos são esses? Que amor é este? O que, afinal, verte? A falta? Mas o que se faz com ela?, pois se na tentativa de tamponá-la, continuamos a sofrer, seja por submissão ou por não querer saber nada dela?

Me deparo com a resposta própria do sofrimento, do mal estar, pois se há a exigência  de que o  outro venha a ocupar esse lugar de preencher o vazio, para que o sofrimento cesse sem considerar que no outro também falta,  dessa forma estaremos apenas negando o próprio desejo, que sempre irá apontar para outra coisa. Isso, por si só, gera mal estar, mas ao mesmo tempo é o que possibilita a existência do próprio sujeito. Estamos diante da perversão como condição de se chegar à felicidade? De amar e ser amada? Que amor é esse que perverte e não traz apaziguamento?

Para encerrar trago uma poesia de Fernando Pessoa que nos diz que o já não pode ser mais. É OUTRO.

“ eu amo tudo o que foi

tudo o que já não é

a dor que já não me dói

a antiga e erronea fé

o ontem que a dor deixou

o que deixou alegria

só porque foi, e voou

e hoje é já, outro dia”

Muito Obrigada a todos, por compartilhar a escuta destas poucas palavras!

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