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Sarau Poético – Texto 11: Pobres, podres, novas criaturas – o tornar-se sujeito e o tornar-se mulher no decorrer do tempo

Pobres, podres, novas criaturas – o tornar-se sujeito e o tornar-se mulher no decorrer do tempo[1]

Aristela Barcellos de Andrades[2]

“…eu parecia ter perdido toda a alma e a sensação,

a não ser pelo desejo de seguir com essa busca.” (p. 62)

Frankenstein de Mary Shelley[3]

Iniciei a escrita desse ensaio pelo título e tentando escrevê-lo com o início semelhante ao do filme Pobres Criaturas, escrevi: novas, podres e agora sim, pobres… notei o meu inconsciente me indicando, nesses atos falhos, o atrapalhamento frente ao que esse fabuloso e impactante filme me causou. Dessa forma, tentarei expor aqui algumas impressões do que esse longa-metragem me remeteu, juntamente a alguns outros pensamentos que vagueiam em minha mente. Não se trata de um texto teórico, mas de uma fala livre daquilo que me tocou.

Impactante é pouco para o que a direção de Yorgos Lanthimos e ao que os atores fizeram frente ao livro Poor Things de Alasdair Gray, publicado em 1992 e filme lançado em 2023.  Algumas pessoas ao dar a sua opinião em relação a esse filme dizem que ele tem um enredo que lembra a obra gótica Frankenstein de Mary Shelley, ao qual não tenho dúvidas disso, mas penso que há tantas outras referências nessa obra.

Escolhi falar sobre o filme Pobres Criaturas, pois lembrei que após vê-lo, postei numa rede social um comentário sobre ele e o quanto havia me surpreendido e, uma colega e psicóloga pediu para que eu escrevesse algo sobre o filme. Respondi a ela que já estava pensando em fazer isso e passado certo tempo, aqui me encontro escrevendo. Não sei bem o rumo que essa escrita irá tomar, pois podemos falar sobre várias temáticas nesse filme. Convido, então, vocês a me acompanharem nessa caminhada ton sur ton da vida de Bella Baxter.

O filme inicia com os créditos juntamente a um belíssimo bordado em cetim, quando de repente a tela se abre em nuances de azul num sedutor degradê e ao som de uma música ao fundo tocada somente pelo violino, quando repentinamente um outro instrumento entra me lembrando, apesar do ritmo mais lento, do fatídico fenômeno acústico do filme Psicose de Hitchcock. Impacta-me a cor de um profundo tom de azul do vestido de uma mulher que tem em sua frente, um tom azul celeste das nuvens, em um dia nublado, e finda-se num outro tom de azul quando percebemos que ela se atirará nas profundezas azuis do rio a sua frente.

Após essa cena tão radiante em tons de um lindo azul, passamos para o preto e branco das cenas seguintes. Aparece uma moça que se chama Bella Baxter, tocando um piano como se fosse uma criança de tenra idade aprendendo, testando os sons que saem de sua boca, e vem ao encontro dela um homem de rosto desfigurado que se chama Godwing Baxter. Durante a sequência das cenas, lembro-me da história de A Bela e a Fera, pois essa Bella permanece trancada em uma casa muito bonita e com tudo o que ela precisa, diz God. Ela come, experimenta a comida e cospe no prato, como uma criança. Anda cambaleando, sem equilíbrio ao se movimentar. Em uma sala com móveis maiores que o comum, cadeiras gigantes para o tamanho e altura dos moradores dessa casa, God, como Bella o chama, come e a sua digestão é feita por frascos de Erlenmeyer, líquidos e canos interligados e ligados ao seu abdômen, ele arrota uma bolha que ao explodir sozinha, Bella aplaude como uma criança que vibra ao ver a bola de sabão estourar. Sua fala ainda rudimentar, às vezes, sai um “tcha” dando tchau a God, ao seu “Deus com asas”, essa é a tradução de seu nome.

God é um médico que dá aulas de anatomia numa instituição fundada pelo seu pai, um homem severo em relação a disciplina e a experimentos com humanos, tudo é pela ciência, não deixando a relação afetuosa surgir. Mais uma vez tal história me lembra o pai de Daniel Paul Schreber que também tem God em seu nome, ou seja, Daniel Gottlieb – “Deus do amor” – Moritz Schreber. Além do nome semelhante, a analogia também é em tamanha rigidez no tratar com o outro. God segue tanto a premissa do pai, que o seu auxiliar, um estudante de medicina que se chama Max McCandles, tradução importante nesse contexto, pois candles significam velas, talvez um ser de luz, um ser que ilumina, clareia, um pouco diferente do que nos lembra o assistente corcunda Igor de Frankenstein. Candles diz a ele: ‒ Eu acredito em Deus! E God responde: ‒ E eu na divindade! Em sua divindade, penso eu, tanto que ele reconstrói órgãos, transforma e modifica a anatomia das pessoas e dos animais. As cenas são tão hipnotizantes que, por vezes, surpreendo-me com um animal com cabeça de pato e corpo de carneiro, por exemplo. Vários “frankensteins” aparecem o tempo todo durante o filme, nessa contemplação da “corrupção da morte”[4] como nos traz Mary Shelley, no personagem de Victor Frankenstein, sendo esse representado pelo seu amado marido, poeta e filósofo Percy Bysshe Shelley: “quem pode conceber os horrores de minha labuta secreta, enquanto eu chafurdava na terra profana dos túmulos ou torturava animais vivos para animar o barro sem vida?”[5]. God seguia os passou traçados nas linhas dos Shelley, onde eles diziam que “somos criaturas não moldadas, apenas semiprontas”[6] e se há alguém mais sábio, devemos deixar que aperfeiçoe “nossa natureza fraca e falha”[7].

Bella usa uma saia de adulto com “almofada”, não consegue pronunciar a saudação “oi”, ela machuca o auxiliar Candles e God não diz nada. Ela sai cambaleando e Candles diz: ‒Mas que retardada mais bonita! Um comentário extremamente desagradável e God diz que a consertou. O corpo e a idade mental não estão em sintonia, ela está aprendendo a falar, usa roupas com mangas bufantes, faz xixi em pé no meio da grande sala, desce da cama com o auxílio de escada, cospe a comida quando não gosta, mas evolui “aceleradamente” segundo Candles. Apesar disso, ela vai na sala de experimentos de God e diz que também corta, e ele responde dizendo: ‒ Apenas os mortos! Ela se direciona a um corpo humano de um homem e mexe no pênis, segurando e soltando, deixando cair, uma cena muito curiosa, Candles olha bastante assustado a tudo isso. Na sequência da cena ela fura os olhos do homem dizendo de forma perfeita: ‒ Corta, corta! A castração sendo demonstrada em sua ligação com a ordem simbólica[8], onde o real do corte no corpo é o objeto reencontrado, e esse reencontro nunca é satisfatório, jamais se reencontrará de fato a mesma sensação de outrora. Mais tarde, Candles percebe um corte na parte de trás do pescoço de Bella que segue em sua nuca, sempre disfarçado pelas suas longas madeixas que cresce 2 centímetros por dia.

God conta histórias de ninar, numa cena que causa estranhamento, ela parece uma criança mentalmente e ali aparece uma mulher deitada e abraçada nesse homem em que ela questiona se ele é seu pai. Ela diz a God que a babá, a senhora Prim, disse que Bella é sem lugar. Onde é esse sem lugar? God diz que ela é órfã e explica que seus pais morreram no Peru, pois eles ultrapassaram os limites e esse é o único jeito de se viver, ou seja, pagando o preço por suas atitudes. Então, ela pede para ele dormir ali, e ele diz que não e sai do quarto dela. Percebemos que na sequência onde algumas regras e leis são colocadas, “Bella querer ver o mundo lá fora”, pois ela sempre está trancada dentro de casa. Enquanto a senhora Prim está apagando o cabelo em chamas de uma das experiências de God, Bella entra na sala dizendo que quer ir para fora de casa e God diz que não. Ele reitera que construiu um mundo perfeito para ela e, Bella discorda e começa a quebrar as coisas.

Na sequência eles saem de charrete para passear, as janelas estão tapadas com cortinas e God comenta que o que tem lá fora pode matá-la. God reivindica o corpo de Bella de forma egoísta e paranoica, tentando transformá-la em seu objeto calado e obediente para todo sempre. Podemos pensar sobre isso em várias conjecturas, como o patriarcado em declínio que vivemos, mas que ainda mostra suas garras de forma tão significativa ainda. Sair de casa e das regras tão severas de God e o seu desejo de que ela não faça nada além do que vê nela, ou seja, um ser acéfalo, poderiam psicotizá-la. Porém, a entrada da luz de Candles em sua vida, mesmo de forma um pouco tímida e o seu desejo de querer ir para além do horizonte, vai tirando Bella dessa vida aterrorizadora e sem lugar em que ela vivia, para entrar em lugares e posicionamentos psíquicos em que o mundo fica pequeno para o seu tornar-se sujeito e tornar-se mulher.

Quando eles chegam numa praça, percebo ao olhar o filme novamente que o cavalo que conduzia a charrete era somente a cabeça do cavalo em uma máquina a vapor. Candles mostra um sapo a Bella, ela diz para matá-lo e aperta a mão de Candles sobre o sapo. Fazem um piquenique e Candles pergunta a God o porquê Bella o assusta tanto, e God responde porque ela é um experimento e ele precisa controlar as condições, caso contrário, os resultados não serão puros. Bela diz que God é adorável como “cara de cão”, mostrando aí que ela percebe suas feições diferentes e as cicatrizes no rosto. Ela pede para tomar “sorvete andante” na carrocinha de sorvetes e ele diz que não. Ela grita e parte para cima dele, agredindo-o e tenta sair da charrete e ele coloca um pano com éter no rosto dela e ela desmaia. Candles carrega-a até o quarto dela e um de seus seios está desnudo, ele se perde olhando para o seio, ali mais um corpo, um objeto, mas logo ele volta a si e o tapa com a blusa. A senhora Prim, tira a roupa de Bella, ajeita-a na cama de forma grosseira e a cobre em seu leito.

Candles vai em busca de respostas e encontra um caderno com rascunhos da cirurgia realizada em Bella e exige uma explicação de God, o que esse faz sem pestanejar. God conta que Bella, cujo nome verdadeiro ele não sabe, foi encontrada a beira do rio após cometer suicídio. Ela estava grávida e o corpo não tinha esfriado totalmente, quando ele pensou em fazer o seu maior experimento pela ciência, ou seja, ele retirou o cérebro do bebê após o parto e introduziu em Bella. Aplicou a técnica do galvanismo, em que estímulos elétricos provocam contração muscular, fazendo uma nova vida surgir através da eletricidade. Ela abre os olhos e, assim, “nasceu” Bella Frankestein Baxter, justificando, de certa forma, todo seu comportamento extremamente infantil.

Vamos para a sequência das cenas e Bella parece sentir prazer quando acorda, no café da manhã ela introduz uma maçã em sua vagina e goza de prazer dizendo algo fabuloso a Sra Prim, e que ainda nos dias de hoje poucas mulheres sentiram: “Bella descobriu feliz quando quiser”. Ela não depende de ninguém para isso e não se constrange em tal situação. Candles tenta impedi-la de continuar se masturbando dizendo que pessoas educadas não fazem isso. Ela passa a não obedecer mais God, provocando-o e ele sugere que Candles case com Bella com a condição de permanecerem morando ali. Candles questiona se God não quer que ela seja sua concubina e God disse que é eunuco e tinha sentimentos paternais por ela. God contrata um advogado para que o casamento ocorra, Duncan Wedderburn. Um sujeito de expressão canalha e que a tradução do seu sobrenome significa murchar e queimar. Ele sai da sala enquanto God lê o documento e procura por Bella que está brincando com bolhas de sabão, entra em seu quarto e diz que vai beliscá-la para saber se ela é real, mas na verdade ele estimula sua genitália de forma ardilosa, considerando-a uma retardada, porém Bella gosta. Ele aparece na sacada de seu quarto enquanto ela se masturba, sobem ao telhado e conversam. Ele diz que os modos da sociedade são um tédio de merda e que ela é uma prisioneira de God, mas ele a salvará, pois ela é faminta por conhecer o mundo. Bella em sua expertise diz que acha não estar segura com ele. Então, Bella comunica a God que vai fugir e se aventurar com Duncan, pois ele não se importará em machucá-la, mas que irá voltar, pois sabe que se casar com Candles é o certo a se fazer. Uma lucidez imensa, ela compreende que precisa aprender com o que a vida tem a ensinar, mesmo que isso seja algo ruim, por vezes. Ela faz questão de atravessar o processo, de aprender com toda lógica do amadurecimento e depois que isso ocorrer, ela voltará para viver com Candles. God não a impediu.

A partir daqui entramos numa outra fase chamada Lisboa, onde Bella aparece em cima de um peixe como se estivesse voando dentro do mar, com um belo sorriso, cabelos “ao vento” pronta para desbravar o seu novo mundo. O cenário passa a ser de um colorido infinito, de cores vibrantes, “cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo cores[9]; bondinhos que voam, lembrando as obras de Salvador Dalí em meio a um bom fado português, e Bella trepando por cima de Duncan. Quando terminam, Bella pergunta por que as pessoas não fazem isso o tempo todo e Duncan muito “gentil e humilde” se gaba de tê-la fodido 3 vezes e ser o melhor homem com que ela terá em sua vida e se sente mal por isso dizendo para que ela não se apegue. Bela diz então, que fará com ele pulos furiosos e se diz descansada, querendo mais sexo. Por incrível que pareça, ele diz que até ele mesmo tem limites e ela questiona se isso é um problema fisiológico, uma fraqueza dos homens, fabulosa pergunta. Duncan se perde e diz a Bella que não se apaixone, é apenas uma aventura, típica resposta do atual “homem hetero top”. Essa me parece ser uma das questões, o sujeito não se dá por conta daquilo que ele diz, ele joga achando que vai ganhar e não se dando por conta que perde, continua apostando no jogo errado, sem criar uma lógica plausível a ele, pois a antiga lógica não está mais dando certo. Esse é o jogo do par ou ímpar que Lacan nos agracia em seu Seminário 2[10]. Duncan a trata com desprezo e Bella entende a fala e a cumpre, é de fato só uma aventura. Ela foi se aventurar e ele achou que ela se apaixonaria. Tanto que ele não tinha mais forças para trepar, dorme e ela sai para passear. Bella coloca seus óculos futurista em meio a pescadores, come mais pastéis de Belém e, vê casais brigando entre as ruelas e os cortiços de Lisboa. No ton sur ton do azul de um belíssimo aquário, Bella paralisa com suas mangas bufantes de um azul claro emocionada ao ouvir o Fado. Vai a um terraço, onde Dalí ficaria orgulhoso com balões em forma de discos voadores no céu, ela olha para a cidade, olha para o mar, vomita, parece não suportar a grandiosidade do mundo e volta ao hotel. Lá está Duncan, transtornado perguntando onde ela estava, e ela disse que voltou pelo barulho do trem e que só encontrou açúcar e violência nas ruas, tira sua roupa e diz querer dar pulos furiosos.

Saem para jantar e ela cospe a comida por não gostar e ele acha isso horrível, ele a repreende, e ela questiona por que manter algo na boca se é revoltante? A outra mulher a mesa menciona o sexo oral de forma discreta e Bella fala que o pênis de Duncan, por vezes, é salgado. Ela se irrita com o choro de uma criança e ele se queixa de seu comportamento e que deveria portar bem a mesa e responder de três formas: Que beleza! Encantada! Como eles deixam a massa tão crocante? Ele aperta seu braço, ela se queixa e ele diz que era porque ela parecia não entender, justificando a sua violência. Ela dá um tapa nele, o beija e voltam ao salão.

Bela envia uma carta para Candles dizendo o que de fato ela está fazendo. Bela bebe num bar sozinha, volta ao hotel e uma senhora a confundi com outra pessoa. Duncan está frustrado pois Bella está se divertindo sem ele e diz: ‒ Me tornei o que eu mais odeio, o amante grudento e egoísta. Eles vão jantar e ela dança sozinha de acordo com o ritmo da música, e ele vai envergonhado atrás dela, aproxima-se e se deixa encantar, entregando-se ao som da música e acabam dançando juntos. Ele diz a ela, que ela é como ele, uma criatura da liberdade e do momento, mas não é isso que ele demonstra. Todavia, ele briga de “forma inglesa”, talvez, pois me recorda o filme de Bridget Jones em que Mark Darcy sai aos tapas com Daniel Cleaver. Voltam para o hotel e quando vão transar, Duncan percebe que Bella poderia ter transado com outra pessoa, ele se irrita e não faz nada e ela questiona se não teria a brincadeira de língua. Ele está horrorizado e chora. God em Londres bebe, chora, desmaia dando aula sobre fígado e Candles sugere que seja por saudades de Bella. God nega na hora e diz que tudo é pela ciência, como poderia ter seu pai lhe marcado suas genitálias a ferro se não fosse pela ciência. Duncan convida Bella a entrar em uma caixa e quando ele a abre, eles estão em um navio. Bella se sente presa, questiona-o e ele diz que ninguém irá atrapalhá-lo no mar e pede a ela para que cavalgue nele, e ela se tranca no banheiro.

Entramos aí em outra fase, The ship – O barco. Bella aparece descendo uma escadaria nos corais no fundo do mar, com um sorriso sereno, postura altiva e respirando muito bem frente a todo esse aprisionamento. Ele diz a ela que foi um rapto por amor, diz que a ama e pergunta se ela o ama. No entanto, ela pede dados empíricos para amá-lo, seguindo os ensinamentos de God. Mais uma vez, enquanto Duncan está dormindo, ela sai do banheiro e vai conhecer o novo terreno, avista uma mesa ao longe, se aproxima e fala com uma “mulher interessante mais velha”, é assim que ela a chama. Bella, não deixa de fazer os enfrentamentos para alcançar e aprender o que deseja. Ambas falam sobre sexo e Martha, essa senhora, diz que não é cortejada há 20 anos, Bella fica horrorizada e diz para que ela coloque a mão entre as pernas para se manter feliz. Isso é fabuloso, duas mulheres conversando sobre suas felicidades e aconselhamentos, ninguém larga a mão de ninguém. Duncan aparece, ouve a conversa e diz que isso não são modos sociais e o acompanhante de Martha diz que ele irá destrui-la se seguir seus “conselhos”.

Na sequência, Duncan pede-a em casamento, e ela diz já estar noiva de Candles e que com ele é só diversão. Esse homem fica furioso como um menino de 5 anos que perdeu seu carrinho de brincar e diz querer atirá-la no mar e ela questiona o que de fato ele quer? Casar ou atirá-la ao mar? A contradição do discurso de Duncan entre o trepador mor do mundo e o menino mimado ficam cada vez mais presentes a cada cena. No convés juntamente com Martha e seu acompanhante, Bella está lendo o filósofo norte americano Emerson[11] que diz que cada pessoa recebe de volta aquilo com que contribui para o mundo, e ela não entende por qual motivo ele não aconselha as mulheres. Martha sugere que Bella leia Goethe e Duncan chega até eles e se queixa que ela só passa lendo. Bella pede para que ele não tape o sol dela, e diz ser um “banquete mudanciável” mostrando aí o seu processo de amadurecimento. Ele tira o livro da mão dela, atira-o no mar e prontamente Martha dá outro livro a ela frente a um céu rosa azulado esplêndido. Ela o busca no Cassino, pois ele foi afogar as mágoas na bebida, e ele não quer. Ele se ridiculariza, tenta jogar Martha no mar, pois está sendo, segundo ele, uma péssima influência a Bella, pois a faz pensar. Um grande problema aos que não pensam ter alguém ao lado que pensa, nada muito diferente de hoje. Harry Astley, o acompanhante de Martha quer mostrar a realidade do mundo a Bella, ela diz não temer o que irá ver.

Entramos em mais outra fase, Alexandria, onde Bella está deitada no olho de alguma coisa, pela tranquilidade me lembra o olho do furacão, o lugar mais calmo da violência dos ventos. Mais uma vez o surrealismo toma conta da cena, quando os personagens saem do navio que lembra uma arquitetura muçulmana e atravessam para Alexandria através de teleféricos com formato da carruagem da Cinderela. Lá ela vê pobreza, fome, bebês mortos e aquilo a compadece em querer ajudar, mas Harry não permite. Ela desce uma escadaria aos prantos, desesperada, o cenário todo em tons de laranja e amarelo queimado em degradê sufocante, pincelam a cena de calor em que se passa. Harry a segura para que ela não caia naquele lugar infernal, quase o Inferno de Dante. Ela retorna ao navio transtornada, encontra Duncan bêbado, dormindo e com muito dinheiro em sua volta. Bella junta tudo o que ele ganhou no cassino e tenta dar àquelas pessoas, mas dois tripulantes do navio pegam o dinheiro frente a sua ingenuidade e usam em benefício próprio. Ela retorna mais uma vez a cabine do casal e diz se sentir cansada, que sua alma foi deformada, amassada e espalmada. Talvez seja somente seu espírito, devido as coisas tristes que ela viu, diz Bella aos prantos. O dinheiro é sua forma de doença e a sua escassez, diz Bella a Duncan, reivindicando um abraço. Harry a chamou de bela por Bella desejar a felicidade e ela diz que ele é apenas um garoto ferido que não tolera a dor do mundo. Ele questiona por que Bella fica com Duncan e ela diz por que ela acha que será melhor, ainda não chegou o momento de se separar dele.

Paris entra em cena em uma nova fase. Bella aparece deitada sobre algo que está sobre a água, parecendo uma cama em cima de um lago. Seu olhar está longe. A cena de Paris começa em tons de azuis, parecendo as terras geladas de Frozen na Noruega e ela em destaque com a sua capa amarela. Ela diz a Duncan que não tem nada e pergunta como viverão, chamando essa nova situação de experimento interessante. Ele sentado num banco de praça, encolhido com um guarda-chuva em mãos pergunta a ela o que farão? E ela diz que acharia um hotel para eles e cita Robinson Crusoe, ele a chama de puta, egoísta, negligente e descuidada e mandou-a calar a boca! Bella vê uma senhora em frente a um estabelecimento e pergunta qual o valor do quarto, a senhora cafetina responde que era 10 francos a hora, Bella fica confusa. A cafetina explica que se ela deixar ser cacetada pelos homens ela ganhará dinheiro e ela se espanta. Ela pensa como God a ensinou, já que ela necessita de fundos, ela vai para o quarto 16. Um francês introduz o pênis em sua vagina, dá três meras investidas e goza. Bella ri com educação, volta para a praça com duas éclairs au chocolat e dá para Duncan uma delas. Ela diz a ele que de fato ele era o melhor homem que ela conheceu até agora deixando seu coração feliz lembrando das ardentes noites, apesar de agora ele estar muito chorão e briguento, pois o francês foi horrível. Ele fica furioso, chama-a de puta, feia e monstro enviada do inferno para dilacerar o coração dele e atira fora a éclair. Ela o questiona que o fato dela deixar outro homem cavalgá-la apagaria toda “ode ao amor” que ele tem por ela? Duncan em sua delicadeza mor devolve a ela que se prostituir é a pior coisa que uma mulher pode fazer a si mesma! Pelo menos ela está cobrando por quem cavalga nela, e não faz isso de graça e cega de ilusão. Bella coloca um limite na relação e que necessita de um homem mais indulgente para continuar seus experimentos. Então, ela pega o dinheiro que God costurou em sua roupa antes de se aventurar por outras terras. Ela diz a ele que esperava que ele desse um jeito nessa situação.

Bella retorna ao estabelecimento de fornicação, e a cafetina diz que esse é o rumo para liberdade. Uma colega chamada Toinette diz a ela que diga ao final de cada trepada ao cavalheiro do momento: formidable! são regras da casa. Essa mesma colega entra após o segundo cliente de Bella com um lencinho para espantar o cheiro ruim do sujeito que foi brutal de um jeito não desejável. Na sociedade, Bella frequenta reuniões socialistas com suas ideias de ajudar a tornar o mundo melhor. A partir daí ela questiona o sistema, quer se deitar com quem escolher, pois isso aumentaria o entusiasmo entre as companheiras de trabalho. A cafetina Swiney diz que ela tem problemas mentais ao cavalheiro que quer foder Bella, e que as coisas são do jeito que são até se descobrir um novo jeito de ser. Sendo assim, devia-se ceder as demandas do mundo, ou seja, “alguns homens gostam quando você não gosta”! Bella trepa com vários tipos de homens, padres, pai mostrando aos filhos como fazer, fornicações teatrais, com algumas manias e, assim por diante.

Nas folgas Bella frequenta aulas de medicina com a sua amiga Toinette. Duncan aparece na janela de Bella gritando e dizendo que está pronto para perdoá-la, que já comprou as passagens de volta para Londres, ela responde que o tempo deles acabou e ele a chama de puta novamente, o vocabulário dele parece sem muitos repertórios. Ela diz que ser puta é o seu próprio meio de produção. God reaparece em cena e está muito doente, praticamente morrendo e pede a Candles que ele o opere e busque por Bella. Em Paris Toinette chupa Bella. Ambas ficam abraçadas após o sexo de forma carinhosa e Toinette pergunta onde está o filho da Bella. Essa diz não ter filho, mas ali há uma cicatriz mostrando o contrário. Duncan está preso em um manicômio ou prisão, isso fica dúbio, e Candles vai visitá-lo para saber de Bella. God envia uma carta a sua filha Frankenstein.

Entramos na última parte, Bella atravessa uma ponte, toda de preto, olhar sério e chega a Londres. A senhora Prim a recebe dizendo que a puta voltou. God moribundo disse ter sentido saudades dela. Bella diz não trazer somente notícias boas, mas olhares ferozes e perguntas difíceis, pois ela quer saber se teve um bebê como as pessoas comentaram com ela. God responde que: “tecnicamente você é seu bebê e sua mãe e, ao mesmo tempo, nenhum dos dois”. Ela vai ao local onde cometeu suicídio, vê peixes mortos. Fica braba e diz que é difícil causar dor em quem já tem dor! Diz a God que é sua criação e volta para o seu criador querendo ser médica!

Na sequência dos dias, ela passeia com Candles e pergunta a ele se ela ter sido puta está bem e se essa coisa de putaria desafia o desejo dele de posse? Pergunta fabulosa, o que liga de fato um casal? O que está em jogo quando duas almas apaixonadas se encontram? Não é esse o caso, mas o que podemos dizer disso que une dois sujeitos? Candles muito educado e esse sim, apaixonado, diz que o corpo é dela e que ele concorda com o que ela pensa em relação a melhorar o mundo e a pede em casamento. Bella gosta desse amor prático, veste-se de noiva com suas mangas bufantes, God toma heroína para dor e vão a igreja. Duncan retorna das cinzas e traz a igreja o marido de Vitória Blessing, antes de se tornar Bella Baxter, Alfie Blessing, e ele disse que ela partiu em estado de confusão e histeria. Ela diz querer partir com Alfie e tentar entender o motivo do suicídio.

Alfie anda armado em casa, eles discutem em uma sala de jantar escura com uma mesa e cadeiras enormes lembrando a antiga casa de Bella, e uma estante gigante repleta de armas. Ela questiona os empregados sobre o passado dela, ela questiona Alfie sobre a causa de sua infelicidade e, o porquê ela se jogou da ponte. Ele responde que ela odiava o bebê e o chamava de monstro, e que ele percebia uma falta de instinto materno nela. Alfie é um homem cruel e perverso com as pessoas que estão na casa, ela o provoca dizendo que foi puta em Paris e ele responde colocando que o casamento é um desafio constante e que tentará perdoá-la sobre a putaria e disse que sua histeria sexual estava fora de controle e o assassinato do filho nascituro foi abençoado por um marido piedoso. Alfie queria que Bella ficasse trancada em casa por pelo menos 1 ano e ela disse que sairá a hora que quiser e ele ameaçou atirar em sua nuca. Contrata um médico para castrá-la, ela diz a ele que quer ir embora ver o seu God moribundo e que já havia confirmado o motivo do porquê se matou. Ele diz que ela é seu território, ela retruca dizendo que não. Alfie afirma convictamente que a raiz do problema é o que está no meio de suas pernas e ele arrancará, pois o trabalho de um homem é lidar com as compulsões sexuais e a da mulher é de dar filhos. Socorro!! Ele ameaça Bella com a arma para que ela tome a bebida de gim com clorofórmio, ela atira a bebida no rosto dele e a arma dispara no pé. A partir daí, só alegria!

Bella leva Alfie para a sala de experimentos de God e, ela e Candles o operam. Eles colocam o cérebro de um bode em Alfie. Após a cirurgia ela se deita do peito de God de um lado e Candles se deita do outro lado. God diz que Bella sempre o olhou de forma diferente que as outras pessoas e falece. A grande cena final, todos estão no jardim, Bella estudando anatomia, Candles, senhora Prim, Felicity, o outro experimento de God e, o general Alfie de quatro comento folhas de um arbusto, todos com seus drinks nas mãos. Gim para todos e água para o bode! Um brinde a ascensão de Bella Baxter! Como Freud disse: Wo es war, soll ich werden[12] – Onde o isso era, o eu deve advir (tornar-se) e Bella se tornou sujeito e mulher!

Há vários comentários sobre o filme na internet, vi poucos após ter visto o filme, pois tentei não me contaminar com observações alheias. Quando estava escrevendo e procurando algumas informações, deparei-me com um texto que saiu no blog de uma editora onde o autor deu toda uma explicação psicanalítica para as personagens, diagnosticando Bella como: puta socialista ou heroína neoliberal, mas definiu-a como heroína perversa. Curioso quando ele a chama de puta socialista, pois é puro retrato da mulher que lida com sua sexualidade e é inteligente, ou seja, questiona o mundo a sua volta. Mas para ele, ela era uma perversa, tenho uma “leve e tendenciosa ideia” de que ele não falaria assim de Duncan, aquele homem arrasado pelo discurso firme e coerente de uma mulher.

Pobres criaturas é uma “bela” metáfora sobre o tornar-se sujeito e o tornar-se mulher, pelo menos para mim. Diferentemente de tantos comentários onde, mais uma vez, psicanalistas entre outros profissionais de outras áreas falaram somente em diagnósticos e críticas morais colocando-a numa posição de doente ou de puta, sendo esses seus únicos destinos. Talvez o meu olhar seja meio surreal em relação a tantas questões envolvidas, mas como mulher consigo perceber a grande e tortuosa caminhada que Bella teve que percorrer para chegar no lugar em que ela mesma construiu para si.

Esse texto se tornou longo, talvez eu tivesse receio sobre isso, por isso levei esse tempo para escrevê-lo, mas em melhor hora seria impossível, precisava amadurecer muitas coisas em mim também. Há tantos detalhes importantes, as falas são tão precisas e preciosas como Yorgos costuma dirigir seus filmes. As relações existentes com outras obras e com a nossa própria obra de vida são infindáveis. O nome do pai de Mary Shelley era Godwin, por exemplo, e sua mãe foi pioneira em relação aos manifestos feministas, onde foi autora de Uma defesa dos direitos da mulher, em 1792. Coincidência? Parece-me que não! A exploração da posição da mulher em relação ao mundo patriarcal que ainda vivemos que o diretor faz juntamente a belíssima interpretação de Emma Stone são fabulosas. A liberdade de expressão, a fome pelo novo, pela descoberta deveriam, a meu ver, fazer parte do mundo de cada mulher. Todavia, pagamos um preço, por vezes, alto quando dobramos a esquina para a nossa liberdade e tomamos um novo caminho. Caminho esse que não nos foi traçado a olhos nus, mas sim, nas entranhas do sofrimento daqueles que nos geraram. Seguimos rumos outros, diferentes, em inúmeras vezes, ficamos presos ao que o outro espera de nós e, fazer diferente faz com que tenhamos que dar conta do choro, da revolta, do afastamento desses que nos prometeram estar conosco em qualquer situação. Não ter medo de seguir em frente e não ceder de seu desejo, requer um longo e tortuoso processo. Agradeço a Psicanálise por isso e por aqueles que tiveram paciência e não foram embora. Bella é uma linda metáfora de inúmeras mulheres que nos mostraram ao longo da história que é possível tornar-se sujeito, ser quem se deseja ser e tornar-se mulher. Quem sabe, nas idas e vindas de nossos processos possamos encontrarmos homens também amadurecidos que possam, que consigam e que desejam compartilhar a vida, nos prazeres e nos tropeços do cotidiano. Confesso, que não encontrei ainda, e não procuro mais, mas entre encontros e desencontros, não me perco mais de mim mesma, e escolho melhor os meus novos encontros.

Grata pela escuta de todos!


[1] Texto apresentado na 6ª edição do Sarau Poético do Salpêtrière Espaço Psicanalítico em 05/10/2025.

[2] Psicóloga, Psicanalista, Especialista em Clínica Infantil e Fundadora e Refundadora Membro do Salpêtrière Espaço Psicanalítico.

[3] SHELLEY, Mary (1797-1851). Frankenstein ou O Prometeu. Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

[4] SHELLEY, Mary (1797-1851). Frankenstein ou O Prometeu. (p. 59) Rio de Janeiro: Zahar, 2017.

[5] Idem (p. 62).

[6] Idem (p. 36).

[7] Idem (p. 36).

[8] LACAN, Jacques. O Seminário – a relação de objeto – livro 4. Rio de Janeiro: Zahar, 1995.

[9] Esquadros – música de Adriana Calcanhoto.

[10] LACAN, Jacques. Seminário – livro 2 – O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

[11] Ralph Waldo Emerson (1803-1882).

[12] FREUD, Sigmund. Novas Conferências Introdutórias (1932). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol. XXII. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

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