Um breve ensaio sobre a errância de Ed Gein na série Monstros (A história de Ed Gein)[1]
Aristela Barcellos de Andrades[2]
A história sobre Ed Gein, o tão famoso carniceiro da cidade de Plansfield é de uma acerbidade sem igual. Assisti aos primeiros dois episódios e o início do terceiro de uma só vez. Levei duas semanas para retomar a sequência dos capítulos seguintes e terminei a série em uma tarde de sábado. A partir daí pude pensar em várias coisas e tentar chegar a algumas conclusões, como em seu diagnóstico, por exemplo, que para mim se trata de uma psicose com um funcionamento perverso, diferentemente de uma suplência perversa como vi esses dias em uma postagem de um psicanalista, porém, ainda não me detive na leitura mais aprofundada desse conceito. Discordo hoje, pois suplência é uma palavra que diz do suplente, aquele que substituirá, aquele que suprirá uma falta, que exercerá as funções de um outro quando este faltar, havendo então, aquele que está na reserva. Todavia, penso que o sujeito está numa estrutura psíquica e pode funcionar em outra estrutura, pois ambas trabalharão juntas, nenhuma estará na suplência da outra. Uma funciona e a outra também, mas de forma velada, ou seja, nenhuma delas pára para que a outra entre em cena. O suplente para entrar em cena tem que esperar o outro sair e, a psicose nesse caso, não sai para a perversão entrar em cena, ela gira junto, os dois funcionam concomitantemente, uma não sairá para que a outra entre.
Foi por esse viés que fui construindo minhas elocubrações em relação a série Monstros – Ed Gein, transmitida pelo streaming Netflix nesse ano de 2025. Os primeiros capítulos me causaram várias sensações, uma mistura de sentimentos, mas o que mais se destacava era um certo incômodo, certa angústia com aquilo que ia acontecendo. Não tenho uma leitura aprofundada sobre a verdadeira história de Ed Gein, portanto, esse ensaio será sobre o que ficou para mim daquilo que ocorre na série. Anteriormente, pensava em assisti-la novamente, mas penso que não o farei a tempo, vou seguindo minhas lembranças, as anotações que fiz e tentarei construir meu pensamento junto a essa escrita e compartilhar com vocês. Não haverá uma descrição minuciosa de cada cena, mas trechos, recortes do que me chamou a atenção.
Ainda nesses primeiros capítulos estava pouco confuso a qual estrutura psíquica Ed Gein vivia, já no decorrer dos capítulos foi ficando cada vez mais claro. A sua condição psicótica com seus delírios e seu funcionamento perverso iam aparecendo na forma como os crimes ocorriam e a maneira muito explícita como a sua mente seguia um roteiro ao cometer as atrocidades naquela pequena e frágil cidade norte-americana.
Ed nasceu em 27 de agosto de 1906, curiosamente no dia do psicólogo no Brasil, na cidade de Plansfield, em Wisconsin e, faleceu em 26 de julho de 1984, com quase 80 anos. Ed foi preso pelo assassinato confesso de duas mulheres, uma delas dona de uma taverna e a outra dona de uma loja de ferragens com quem ele perdeu a virgindade aparentemente. Também foi considerado suspeito de ter matado outras sete pessoas, supostamente mulheres, todas mutiladas, em que pedaços de pele e partes dos corpos foram costurados e transformados em objetos da casa, como o abajur, por exemplo. Outras partes de seus corpos foram feitos de máscaras, potes para alimentar-se e, assim, sucessivamente, verdadeiros troféus espalhados em sua casa e no galpão do sítio em que vivia. Após a descoberta desses crimes ele foi considerado inapto a cumprir a pena por ter sido diagnosticado como esquizofrênico, foi então, internado numa instituição psiquiátrica, onde permaneceu até a sua morte em 1984, aos 77 anos de idade.
Não trarei minhas observações na ordem dos acontecimentos, mas na ordem de minhas lembranças da série. Da mesma forma, esse texto não é um tratado e nem está fechado, pretendo trabalhá-lo mais a fundo posteriormente. Apesar da história de Ed Gein estar bastante relacionada com as mulheres, no início da série acontece algo que desvincula um pouco essa questão, é quando Ed ao ser contrariado pelo seu irmão atira um pedaço de tijolo na cabeça dele, este cai no chão morto. Ed fecha a porta do celeiro e vai conversar com a mãe como se nada tivesse acontecido. Fechando a porta ele fecha, também, a possibilidade de lidar com o real de seu ato e o assassinato de seu irmão. Quando o corpo do irmão é encontrado pela polícia após alguns dias e, numa tentativa frustrada de Ed em forjar a morte deste, o legista aparentemente não percebe que o irmão de Ed já estava morto há alguns dias, pareceu-me estranho. Em outra cena, Ed está no trator e judeus correm e passam por ele em suas terras, vinculando isso as atrocidades da guerra relatadas pelas possíveis revistas alemãs mostradas por uma “amiga”, configurando aí, o desvelamento de seus delírios e sua errância. Na medida em que as cenas vão fazendo eco umas às outras, as alucinações e delírios de Ed vão aparecendo e, muitas vezes nem as percebemos.
Podemos acompanhar durante a série, na sequência das cenas, tamanha a rigidez de sua mãe, uma mulher infeliz, revoltada com a vida, por ser mulher, por ter tido filhos, tanto que dizia ter sido violada pelo pai de Ed no casamento. Ela era extremamente religiosa, e todas as mulheres que não eram assim, ela as considerava e as demonizava pelo significante Jezebel. Toda vez que ela xingava as mulheres de Jezebel, em seu tom de voz parecia algo de pecaminoso, pejorativo e promíscuo. Na história do mundo, Jezabel foi uma rainha bíblica, casada com o rei de Israel e, introduziu a adoração a um deus pagão chamado Baal. As pessoas inocentes que eram contra a essa idolatria, Jezabel mandava matá-las. Também, foi considerada uma mulher que induziu os santos de Deus, através de sedução e manipulação à pecados de imoralidade sexual, promiscuidade e usurpação da autoridade masculina. Curiosamente, era essa última ideia que a mãe de Ed exercia com o pai dele, este aparecendo como um homem alcoólico, frágil e com o destino de sua vida amarrado nas mãos dessa esposa que o acusava de ter violado ela duas vezes na vida, no qual deu-se o nascimento de Ed e de seu irmão mais velho. Curiosamente ela foi violada em seu período fértil, pensemos! Ed aparecia sempre obedecendo as ordens e aos gritos furiosos dessa mãe, ele sempre era uma grande decepção a ela, e ela deixava isso extremamente claro quando falava com ele e, dizia que só uma mãe mesmo para o amar.
A mãe de Ed, por exemplo, apresenta certo fanatismo religioso com a ideia em fazer com que as pessoas pensem como ela. Isso não ocorre nas demais pessoas, a não ser com Ed que segue à risca o que ela fala sobre a questão sexual, por exemplo. Do lado dele, percebemos que é muito difícil e, ele não consegue afrontar a autoridade dessa mulher, de forma semelhante ao seu pai. Para que possamos, então, considerar uma psicose não podemos nos prender somente na fenomenologia, mas sim, perceber a continuidade da estrutura dessa relação contínua na forma como essas “almas isoladas” vivem a sua errância e, lidam consigo e com o outro, Dias (2025, p. 25)[3].
Já na vida pacata de Plansfield Ed causava um certo estranhamento às pessoas e, principalmente, as mulheres, quando chegava em alguns estabelecimentos públicos, como as bodegas e restaurantes. No entanto, uma moça conversava com ele sem problema algum, pareciam ser muito próximos. Foi através dessa relação, a meu ver, com grandes probabilidades de ser fruto de sua imaginação, ou seja, um delírio e, já direi o porquê pensei nisso, que muito das atrocidades ocorreram e da forma como ocorreram. Essa moça chamada Adeline, a amiga citada anteriormente, comporta-se de forma extremamente diferente de todas as outras pessoas na cidade, ela é a única que estabelece uma relação de amizade íntima com Ed e, não é afetada por isso, ou seja, ela não é assassinada.
Ela não se sente incomodada na presença dele, insinua a possibilidade de namoro e sempre escapa da situação quando necessário. Contudo, quando é conveniente, ou seja, quando ela quer sair de casa, ela se enamora dele, porém com várias restrições. Ela não quer levar as últimas consequências da relação dos dois que seria transarem, então, ela desconversa, dissimula a possibilidade do ato sexual. Ao mesmo tempo, ela fala a Ed que ele poderia transar com alguém que não diria “não” a ele e, esse alguém é uma senhora da cidade que havia falecido há uma semana.
Ed desenterra essa senhora, cujo nome não me recordo, coloca-a sobre a mesa da sala de jantar, uma música agradável da década de 50 toca ao fundo, as luzes da sala num tom agradável, uma penumbra para um encontro romântico. A cena nos leva a esquecer de várias coisas que Ed já havia feito, olho a cena e, ela me causa estranhamento, pois penso por segundos, onde estão os recortes de peles que ele já havia feito, penso no cheiro horrível que deve ter dentro de casa, mas não dou a devida atenção e sigo assistindo. Ed conversa com a morta, “é gentil” e se deita por cima dela. Entre aspas, ele transa com ela, com aquele corpo cheirando a putrefação, gelado, já endurecido, um corpo sem vida, mas ele “mete” seu pau nela, alucina ela chamando seu nome e “gozam juntos” em seu delírio.
Adeline é quem leva as revistas de uma personagem alemã perversa que teria cometido inúmeras atrocidades durante a guerra e Ed se inspira nela para dar vazão a sua mente distante da realidade. Ed desenterra a sua própria mãe após ela ter falecido devido a uma briga com a vizinha e morrer. Adeline é a moça que conversa com Ed sobre mortes e o incentiva, anda de patins com ele numa bela tarde de sábado e, quando vai à casa dele, ela não sente o cheiro de putrefação da mãe dele morta. Na sequência das cenas, como já citei, é ela quem diz a ele para tirar o corpo da sepultura para não ter que transar com ele, e no final da série, ela aparece visitando-o no hospital psiquiátrico, porém, seu envelhecimento não aparece junto, o máximo demonstrado que ela pode ter envelhecido é o uso de óculos. Essas especulações me fazem pensar que ela pode ser fruto da imaginação dele. Ed alucina a presença de Adeline, isso o auxilia a lidar com a sua forma de ver e vivenciar o seu mundo. Mesmo que ela seja real, parece-me ser alguém de uma estrutura psíquica perversa, fazendo função de uma voz para Ed, autorizando-o a realizar os crimes, ela valida Ed e os seus atos e o faz sentir-se pertencente e aceito nesse mundo.
Um dos episódios se chama “cor verde” se não me engano ou algo assim, em vários momentos o verde se destaca nas roupas, nos objetos até a cena final quando Ed está na varanda da casa com a sua mãe, ela vestida de verde e ele de camisa xadrez em tons de verde. As lingeries que Ed se interessa em tê-las são sempre verdes, a cor do chá em que a dona da loja de ferragens está tomando é verde, como também, a sua meia arrastão em que o filho a reconhece pendurada e estripada no galpão do sítio. Inclusive é esse detalhe que o filho reconhece sua mãe e, então, prendem o Ed por assassinato. Durante a cena sobre o que o filho e a mãe comeriam no feriado de Ação de Graças parecia haver algo incestuoso na relação entre eles, tanto que o que faz reconhecê-la é a meia arrastão verde. Ed quando transa com ela, ele coloca a lingerie que ela deu a ele de cor verde. Após isso, Ed tenta se desvincular de sua mãe e ela o xinga dizendo que agora ele está doente sexualmente e Ed mata a dona da loja de ferragens.
Questionei-me nessa cena, quando o auxiliar do xerife achou a mãe pendurada e estripada, como ele a reconheceu, sendo que o corpo estava sem cabeça? Nessa cena em que ele está conversando com ela e a pede para que faça a ceia de Ação de Graças, ela se senta no sofá tomando o vinho e tive a sensação dela estar se insinuando para o filho, havia algo muito perverso ali, ela mexe na perna e entre as pernas aparecendo o risco da meia-calça. E então ela diz, sim eu vou fazer a ceia. E quando ele olha aquele corpo pendurado e a câmera fecha a cena na meia arrastão verde da vítima, aí ele grita, pois ele reconhece o risco da meia-calça e vê que é a sua mãe. Nessa cena, mostra a diferença em lidar com as tragédias na neurose, por exemplo, quando o rapaz viu a mãe estripada e pendurada como um porco, ele se perdeu no mundo, seu sofrimento era insuportável, ele foi parar no fundo do poço.
Ed também matou a dona da taverna, após uma conversa ela ter insinuado a possibilidade de transarem, a voz de sua mãe ecoou em sua mente e ele a mata sem pestanejar, a leva para casa e ali ele dá seguimento a sua carniceria. A voz de sua mãe ecoa sempre em sua mente, além das lembranças dela estripando um porco, por exemplo. Ela estando viva ou morta sentada em sua antiga cadeira, não interessa, pois quando ele se senta antes de trazê-la de volta da sepultura, ele escuta o grito de sua mãe o proibindo de se sentar em seu lugar e, levanta-se imediatamente. Ele continua obedecendo a essa voz que ecoa, que grita em sua mente ordenando a seguir o rumo que ela traçou para ele, funcionando assim, como uma marionete, um fantoche de seu próprio delírio. Percebemos um esvaziamento da equivocidade e da polissemia como cita Dias (2025), ali não há flexibilidade para perceber e agir de forma diferente, quando Ed escuta e vê algo vinculado ao sexo, a voz da sua mãe ecoa e, a morte do outro é inevitável. Lacan cita que, “tudo o que é recusado na ordem simbólica, reaparece no real” (p. 11), não havendo o estabelecimento psíquico da castração, ele a faz no real, ou seja, ao invés dele flexibilizar a fala do outro, ele a encerra assassinando.
Ed tem algo em relação as mulheres, ele se masturba usando roupas íntimas femininas, sua mãe vê e diz que ele é uma vergonha para ela, e ao mesmo tempo, diz que ele não pode transar com as mulheres, pois isso é pecado, é impróprio, é uma desgraça à vida. Ed só mata mulheres e tira pedaços do corpo dessas pessoas como os mamilos, a vulva, a pele do rosto, do corpo todo e se “veste” desse corpo outro para se sentir como se fosse uma mulher, como também, de roupas femininas. Por outro lado, ele admira muito as personagens do sexo feminino, a militante perversa alemã em que ele acredita ter conversas via rádio, são impressionantes, como também, como a atriz trans. Ele queria ser ele mesmo no corpo de uma mulher, ele se sentia bem ao vestir roupas femininas e fazer trejeitos que o feminino tem e faz. E, no final de sua vida, ele auxilia o FBI na captura de um psicopata que matava mulheres, parece até contraditório.
Ed não queria ser mulher na hora da cópula e receber os raios divinos de Deus como o presidente Schreber[4], diferentemente de um admirador seu que estava preso e que colocou seios e recebia dinheiro de outros homens na prisão para o “comerem”. Ele também não queria transar com homens, ele queria transar com mulheres usando roupas femininas. Em nenhum momento o Ed diz tirar o pênis, ele coloca o pênis entre as pernas como os travestis costumam fazer ao se apresentarem. A atriz trans que aparece tira o seu pênis e o admirador dele coloca seios para ser fodido como uma mulher, eles transcendem o que o Ed Gein fez, fazendo o que o próprio Ed não fez em relação ao seu corpo. Ele se veste de peles, coloca roupas íntimas, mas não mutila ou corta o seu corpo para parecer uma mulher, corta as mulheres para usufruir de suas partes e peles, mas não o corpo dele. Ele come mulheres mortas, ele não come homens ou se deixa foder por homens, são mulheres que ele se relaciona, mesmo estando mortas. Tanto que quando ele e Adeline transam, ele coloca gelo numa banheira para o corpo dela esfriar, pois ele não consegue ter tesão por um corpo quente e macio, ele diz a ela que seu corpo está muito quente e seu pênis não fica ereto.
Quando Ed fala com ele mesmo e acha que falou com a Ilse, a alemã perversa, ela diz que não fez nada, que só estava defendendo o seu Führer. Hanna Arendt dá uma explicação ao que o Eichman[5], o capanga responsável pelo trem que levava os judeus para a câmara de gás, fez durante a segunda Guerra Mundial e chama isso de banalidade do mal. Eichman dá um sentido ao que ele fez, dizendo que só obedeceu às ordens de Hitler sem pensar no outro ou até em si mesmo. Diferentemente de Ed Gein, pois ele segue o seu delírio, a sua errância, ou seja, quando ele está comendo a mulher na mesa ele alucina ela viva, ele não lida com ela morta, tanto que ele fala com ela como se ela estivesse viva e, dizendo o que vai fazer com ela. Todas as pessoas que ele matou ou desenterrou ele fala como se estivessem vivas. Ed não acredita ter matado todas essas mulheres, cogita e assume a morte de duas delas, isso aparece no detector de mentiras, quando ele afirma que não fez todas essas atrocidades, o detector confirma que ele está falando a verdade. Ilse diz que fez em defesa do Führer, ela sabe que o fez. Ed, não, tanto que ele diz “eu não posso dizer que fiz, e não posso dizer que não fiz”, essa era a verdade dele, ele não mente, ali aparece a sua dissociação perversa, ele desmente a lei, é o desmentido, a sua Verleunung que aparece nesse momento.
A relação simbiótica com a sua mãe acarretou uma psicose, o funcionamento perverso é uma possível forma de cura em relação a esse aprisionamento psíquico em que ele vivia com ela. Todavia, isso acarretou mortes de várias mulheres quando o discurso e o comportamento delas disparavam em sua mente a questão sexual a que sua mãe se referia. A lucidez da psicose, aparece em vários momentos da série e, principalmente quando ele percebe o que fez durante o tratamento com o psiquiatra. A partir daí, ele passou a tomar medicamentos que “acalmavam” seus delírios e alucinações, tanto que mostra que ele achava que havia matado uma das enfermeiras que ele não gostava muito, pois a achava rígida, pois deveria lembrar a sua mãe. Após um tempo de “apaziguamento” da mente, eles se tornam muito afetuosos um com o outro e, ele agradece a enfermeira que ele mais odiava.
Em carta ao professor Flechsig[6], cita Freud, Schreber fala sobre as vozes que escuta e que falam com ele e, o quanto repetitivamente elas se dão, todavia, havendo outro acontecimento, elas passaram a se tornar secundárias. Da mesma forma, que ocorre com Ed, após ele ir para o hospital psiquiátrico as vozes de sua mãe passaram a se tornar secundárias e, após o uso da medicação elas quase inexistiram. Ele passa a dar importância a outros fatos e outras possíveis relações, as conversas de rádio, por exemplo, de um rádio que não estava ligado na tomada, portanto, nunca o endereçamento que ele fez chegou ao devido destino em que ele acreditava. Essas mensagens retornaram para ele de forma invertida. Quando ele percebeu que foram alucinações, ele “convulsiona” na frente do psiquiatra, numa possível crise de realidade, ou seja, ele se dá por conta do que estava acontecendo em sua vida, de sua errância.
Retomando um pouco, percebemos que estamos sempre dentro dos seus delírios, quando ele copula com a mulher morta na mesa, podemos perceber a casa super limpa, arrumada, mas como poderia estar tão organizada assim? Contudo, quando o xerife entra na casa e está aquele horror, bagunçada, com mal cheiro, aí pensei, agora sim está mostrando algo de como deveria ser de fato. O delírio dele é convidativo o tempo inteiro, e a gente entra e não se dá por conta, “A realidade profundamente pervertida, é isso que se chama o delírio[7]” (p. 37) cita Lacan. Ele vê muito a cor verde, quando ele mata a dona da loja de ferragens a cor do sangue é verde; antes quando eles almoçaram juntos a cor do chá que ela toma, é verde; a cor das lingeries é verde, a roupa dele e da mãe quando termina a série, é verde; o farol do carro dele é verde e, assim sucessivamente, como já foi explicitado.
As cenas finais, para mim, foram fabulosas! As cenas em que ele vai na cadeira de rodas e uma mulher de branco sobe as escadas é a mãe dele, e ele não está preparado para ir com ela, pois ele ainda não fez algo bom para o mundo, segundo o que ele dá a entender. Mas quando ele ajuda ao FBI e a polícia a prenderem o psicopata Tedy, aí ele pára, e frente a todos os horrores que ele fez, ele conseguiu fazer algo bom. Isso não é uma cura da psicose ou da perversão no sentido de nunca mais sentir os sintomas, ou pensar nisso. Com a medicação e o trabalho juntamente ao psiquiatra ele consegue acalmar as alucinações e os delírios, ele consegue ter uma vida mais calma, mas ele não deixa de fazer os mamilos, por exemplo, ele recortava as notícias dos jornais que falavam sobre ele ou das pessoas que o seguiam e achavam ele o máximo, ele recebia inúmeras cartas de seus fãs. A questão não era ele ser famoso, mas sim, que ele fizesse algo de bom no mundo. E quando aparece ele novamente na cadeira de rodas, após ele ter feito algo bom, entramos em mais um delírio dele, ali estão seus fãs e aí ele sobe as escadas e diz para a mãe que agora ele pode ir com ela. E no final quando a mãe fala de novo a frase “só uma mãe para te amar mesmo” tem um outro sentido, um tom diferente, pois no início da série havia muita raiva nessa mãe. E ele reflete algo como, sim, eu sou digno de ser amado, após ele ter se sentido rejeitado e, se sentido muito sozinho em toda a sua vida. É na morte que ele pode se tranquilizar, agora ele se permitiu morrer, se deixa ir, antes do tempo sugerido que ele tinha de vida frente a um câncer que ele enfrentava.
Pode parecer estranho, mas deu vontade de até colocá-lo no colo, é muito difícil não julgar, pois ficamos presos aos horrores que ele fez. Mas olhar que ali existe um sujeito em sofrimento não mensurável e, mesmo assim, perceber que ele conseguiu fazer algo bom salvando várias outras mulheres da morte, é apaziguador na nossa mente, na minha foi. E é a partir daí, como se ele tivesse feito um reparo na história é que ele descansa, descansa a sua mente extremamente perturbada e sofrida e, pensa que frente a tanto horror que ele fez, ele conseguiu fazer alguma coisa boa por alguém, esse passou a ser seu novo significante.
A mãe estava de branco nesse final e não de preto como apareceu durante a série! Belíssimo final com os dois sentados na varanda de casa, sorrindo, conversando afetuosamente! A direção artística dessa série também foi fabulosa! Ele permanece até hoje na história, através de livros, filmes, séries, sendo considerado um monstro, mas não é, ele foi um sujeito que sofreu e fez sofrer muitas pessoas dentro da sua estrutura psíquica. Ele elevou o nome dos Gein, como sua mãe disse, para posteridade e, estamos hoje aqui conversando sobre sua história.
Obrigada!
[1] `Texto apresentado na 2ª Jornada de Estudos Salpêtrière Espaço Psicanalítico, no dia 13/12/2025.
[2] Psicanalista membro fundadora do Salpêtrière Espaço Psicanalítico.
[3] DIAS, Mauro Mendes. As fronteiras da psicose. São Paulo: Iluminuras, 2025.
[4] SCHREBER, Daniel Paul. Memórias de um doente dos nervos. Tradução: Marilene Carone. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1995.
[5] ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém – Um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
[6] FREUD, Sigmund. Observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos (1911-1913). In: Obras Completas – vol 10. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
[7] LACAN, Jacques. Psychoses (1955-1956). http://staferla.free.fr/S3/S3.htm




