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Revista Cot(i)dianos – Texto 8: Fragmentos e restos de um ensaio de Cartel

Fragmentos e restos de um ensaio de Cartel

Aristela Barcellos de Andrades[1]

“A passagem de psicanalisante a psicanalista tem uma porta

cuja dobradiça é o resto que constitui a divisão entre eles,

porque essa divisão não é outra senão a do sujeito,

da qual esse resto é a causa”

Jacques Lacan – Proposição de 9 de outubro de 1967

O que venho propor como discussão neste texto é o testemunho de uma experiência ocorrida há aproximadamente 3 anos sobre o ensaio de proposta de Cartel na Associação Clínica Freudiana, o qual se chamou Cartel ENformacion. Ao iniciar esse trabalho, estava retomando algumas leituras, escritos que havia feito na época, e me deparei com o áudio do primeiro encontro que data de 27/09/2015 e fui escutar como apresentei essa proposta para as outras colegas. Nesse encontro estavam eu, membro da ACF, e duas psicólogas, ambas faziam parte do Laboratório de Psicanálise – 8ª edição.

  Interessante que já nas minhas primeiras falas sobre a proposta que fazia a elas e ao contar como havia colocado para o grupo dos associados, algo muito importante me chamou a atenção e penso que o rumo de minha escrita tomou outra direção. Ali, eu dizia que havia proposto essa ideia aos meus colegas, e que já havia pensado em fazer um cartel nos estudos que faço em Santa Maria ou na ACF em São Leopoldo. Mas em Santa Maria havia uma questão de “tempo” ou falta do mesmo, e já que elas, a quem havia feito o convite, estavam com “tempo” naquele momento, poderíamos então iniciar essa proposta de trabalho. Essa foi a minha primeira fala com elas em cartel em 2015, e foi somente no Nachträglichkeit, como nos diz Freud, no só depois em 2018, através dessa escrita que o sentido se abre, se faz, que passo a compreender de outra forma essa experiência.

Trabalhamos em torno de 1 ano e meio nesses estudos, com alguns textos de outras instituições, como também, os Outros Escritos de Lacan, o qual abarcavam leituras referentes a questão do cartel e da formação. Uma vez que, a proposta inicial desse Cartel era tentar compreender o que era de fato um cartel e como esse dispositivo era trabalhado na formação do analista.

No Ato de fundação (1964) Lacan traz a proposta de fundar a Escola Francesa de Psicanálise, estando pessoalmente em sua direção, como ele mesmo cita, e que teria por objetivo o trabalho de formação em que “restaure a sega cortante de sua verdade”, verdade essa a de Freud. E com isso ele propõe como dispositivo de trabalho aquilo que ele chamou de cartel, que seria trabalhar em pequenos grupos. Em cada grupo, chamado de cartel, “se comporá de no mínimo 3 pessoas e no máximo 5, sendo quatro a medida. Mais UM encarregado da seleção da discussão e do destino a ser reservado ao trabalho de cada um. O cargo de direção não constituirá uma chefia cujo serviço prestado seja capitalizado para o acesso a um grau superior, e ninguém terá como considerar-se rebaixado por retornar a categoria de um trabalho de base” (pg. 235) , e assim por diante. Lacan irá explicitar como a Escola irá funcionar para que viesse ocorrer a efetivação do psicanalista, para que esse pudesse “tornar-se responsável pelo progresso da Escola, tornar-se psicanalista da própria experiência” (pg. 248), nos coloca na Proposição de 9 de outubro de 1967.

Em Sessão Plenária do “Mais Uma” que ocorreu num final de semana a partir das 17h de sábado, e se estendeu até domingo, em 1975, sobre a função dos cartéis, vários psicanalistas estavam presentes, entre eles, Laurence Bataille, Solal Rabinovitch, Juan-David Nasio, Charles Melman, Alain Didier-Weill, Colete Soler, Pierre Bastine, Nicole Guillet, Moustafha Safouan, Jenny Aubry, Jacques Lacan e mais alguns outros. Eles discutiam e traziam exemplos das experiências e testemunhos em que cada um participava relacionado aos cartéis, e as elaborações produzidas pelos mesmos.

Inúmeros exemplos foram transmitidos pelos participantes dessa extensa discussão. No domingo pela manhã, após inúmeras exposições em relação aos possíveis cartéis dos psicanalistas presentes nessa plenária, Lacan pede a Safouan para que esse possa falar sobre o “mais um”, pois este foi o único termo que ele havia sublinhado no Ato de Fundação e parecia ter passado batido pelos psicanalistas. Lacan trazia essa questão, pois as pessoas o convocavam para ele ser esse “mais um”, e o quanto era importante compreender que esse lugar não fosse cristalizado para o funcionamento de todo o grupo. Safouan colocou que preferiria falar no domingo à tarde.

Portanto, no domingo à tarde, no só depois, Safouan diz: “– Tive tempo de ler a Ata de Fundação e percebi que tinha esquecido o texto”, e Lacan coloca: “– Você não é o único!” (pg. 97). Safouan expõe que o que não ocorreu nessas experiências, ditas de cartéis, foi a permutação, ou seja, troca essa necessária para “dissipar o máximo possível os efeitos de caciquismo” (p.98) oriundas de um grupo. É necessário ocorrer a permutação de lugares, para que o narcisismo de todos seja trabalhado e colocado à prova. Lacan concorda com isso dizendo: “–Não, não foi feito nunca”. Essa função só faz sentido onde o sujeito está ligado ao “mais um”, portanto, está ligado a si mesmo e aquilo que pode se desprender, se soltar. Não se trata de uma amarração, de estar entrelaçado, mas o que está em jogo num cartel, o que é preciso funcionar é “sustentar a relação que cada um pode ter, no seu trabalho, com o que tem a dizer” isso é o que constitui aquilo que há de essencial na função de um trabalho de cartel numa instituição.

No decorrer das discussões, Lacan concorda com Daniel Sibony e coloca que o “mais um” é a infinitude latente, a função do resto, aquele que estaria abandonado “o mais próximo possível do ponto pelo qual o real vai insinuar-se no grupo” (pg. 104), e que seria disso que os sujeitos fogem, de se imaginar, cada um sendo responsável pelo grupo, ter que responder como tal, de se expor. E Lacan acrescenta: “… aquilo que faz o nó borromeano está submetido à condição de que cada um seja efetivamente, e não só imaginariamente, o que sustenta todo o grupo” (pg. 104). Sustentar o desejo, a fala, se expor dentro de uma instituição não são coisas fáceis de fazer, requer se autorizar a este lugar, ao lugar do analista, ao lugar de resto, ao lugar do despojamento narcísico. Há necessidade de tempo para olhar, compreender e concluir, e compreender novamente.

Lacan em seu texto O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada traz a história dos 3 prisioneiros para explicar o tempo lógico: o instante de olhar, tempo para compreender e o momento de concluir, deter-me-ei aqui no tempo para compreender. Tempo esse que de certa forma sempre é um dos meus “calcanhares de Aquiles”, tempo esse considerado por alguns, acelerado, mas que para mim urge. Urge em minhas angústias em não ter tempo para tudo o que quero ou gostaria de fazer, tempo para tudo o que quero ler, conhecer, viver, experienciar. Tenho sede de tempo, e nessa sede, precipitei-me em alguns momentos em relação a essa proposta. Havia entendido que a proposta do Cartel não ocorreu como esperado, ao final das contas, iniciou-se pelo tempo, e o tempo de cada uma ali era muito diferente. Posso, todavia, falar somente do meu tempo, e hoje compreendo que esse tempo se precipitou.

Mas por quê? De minha parte penso, que se deu um grupo de estudos no qual eu queria estudar sobre cartel, isso fica claro para mim e convidei duas colegas que talvez pudessem querer estudar também. Precipitei-me, pois não estava preparada para fazer um cartel, eu mal sabia o que era esse dispositivo. Necessitei desse tempo de meditação, como o próprio Lacan cita para poder compreender que ali faltava algo, não relacionado diretamente ao se expor, mas de que forma o fazer, de que forma sustentar, não o saber, mas o despojamento narcísico de estar num lugar de trocas, sustentar as dúvidas, sustentar o lugar que ali me colocava. “O tempo de compreender pode reduzir-se ao instante de olhar, mas esse olhar, em seu instante, pode incluir todo o tempo necessário para compreender” (pg. 205), para compreender que ali me colocava num lugar demandante, num pedido de cumplicidade, num pedido de não estar só em meus questionamentos e angústias frente ao não saber. Mas hoje, mais claramente, frente aos enfrentamentos em relação ao “mais um”, entendo a solidão da clínica de uma outra forma, percebo melhor o tempo de cada um e principalmente a singularidade do meu tempo e de minha formação. Mais uma vez, foi só no Nachträglichkeit percebo que o tempo lá era outro e não tinha como ter dado continuidade. Mas mesmo naquele tempo e daquele jeito, cheio de fissuras a tentativa de cartel se deu, podemos hoje pensar juntos como podemos nos colocar mais vezes em discussões dos dispositivos que trabalhamos na Associação Clínica freudiana, seja o Cartel criado por Lacan, seja a Recepção criada na ACF.

No final da plenária, em um pós-escrito Daniel Sibony deixa seu testemunho dizendo: “Acrescentaria a seguinte observação, que para mim pode dissipar o nevoeiro da questão: o ‘mais um’ é uma presença, a mais, do Um. Há religiões onde, quando se juntam três ‘fiéis’, há uma presença do Um que invocam, que se dispersa com eles. Este ‘um a mais’ não tem então qualquer necessidade de encarnar-se para funcionar, e esse efeito não se mostra, mas se demonstra.” (pg. 109).

Demonstra-se em momentos como esse, de um testemunho daquilo que ficou como resto de trabalho e onde podemos juntos colocar a psicanálise em discussão em prol do nosso fazer e escuta clínica.

Referências Bibliográficas:

LACAN, Jacques. O tempo lógico e a asserção de certeza antecipada. Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 1998.

LACAN, Jacques. Ato de fundação. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 2003.

LACAN, Jacques. Proposição de 9 de outubro de 1967. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Zahar Editora, 2003.

LACAN, Jacques. Sessão de grupo do domingo de manhã do “MAIS UMA” (continuação). In: Documentos para uma Escola. Letra Freudiana ANO I – Nº 0. Rio de Janeiro: Letra Freudiana, 1981.

MOUSTAPHA, Safouan. Sessão de grupo do domingo de manhã do “MAIS UMA” (continuação). In: Documentos para uma Escola. Letra Freudiana ANO I – Nº 0. Rio de Janeiro: Letra Freudiana, 1981.

SIBONY, Daniel. Sessão de grupo do domingo à tarde do “MAIS UMA” e da matemática – POST SCRIPTUM. In: Documentos para uma Escola. Letra Freudiana ANO I – Nº 0. Rio de Janeiro: Letra Freudiana, 1981.


[1] Psicóloga, Psicanalista membro da Associação Clínica Freudiana e da Escola de Estudos Psicanalíticos (em 2018).

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