As “Coralines” no mundo secreto de hoje. Uma Ausência materna simbólica numa perspectiva da Obra de Françoise Dolto.
A mãe presente fisicamente e ausente simbolicamente [1]
Waleska Fabiola Waetge Mendes [2]
A minha infância foi muito divertida e animada, porque assistir filmes no cinema era um costume da minha família.
Meu pai um homem estrangeiro e uma pessoa culta, mas geralmente quem era minha companhia no cinema era minha mãe, mesmo criada por minha avó na simplicidade, minha mãe era uma admiradora e assídua frequentadora das salas de cinema.
O cinema marcou a minha infância, pois eu estava com a minha mãe, sim, eu estava com ela. Uma mulher solteira que apesar de tentar prover financeiramente a casa, o que mais importava era o vínculo afetivo e suporte emocional que transpassava entre mãe e filha. Uma presença materna sabida, que manejava os não e os sim, e deixou me constituir como sujeito.
Hoje não precisamos mais ir até uma sala de cinema, temos a tecnologia ao nosso favor. Praticamente o cinema está em nossas casas, assistimos filmes bons ou ruins, o horário que queremos e na intimidade de nosso lar. Uma prática valiosa que nos faz pensar a psicanálise.
A teoria da psicanálise entrelaçada com os filmes, o cotidiano na clínica, a supervisão e até mesmo na análise pessoal, descobertas aconteceram no divã de encontros e desencontros, percebo ser muito bom e instigante assistir uma sério ou um filme e pensar a psicanálise na prática.
Com esse pequeno relato da minha vida faço agora um breve texto na qual apresento o filme Coraline e o Mundo Secreto. O filme parece mais um conto de fadas sóbrio com várias tramas. Numa cena do filme a personagem Coraline busca atenção de seus pais, que estão ocupados com seu trabalho. Uma trama é construída, que pode ser interpretado como, a criança sendo ignorada por seus pais e em busca de atenção e carinho envolver-se com lugares ou pessoas perigosos.
No filme Coraline a “Outra mãe” atrai crianças solitárias com amor e atenção para aprisioná-las e consumir suas vidas.
O filme tematiza satisfação e desejo, Coraline inicialmente prefere o Outro Mundo porque ele atende a todos os seus desejos, mas descobre que essa satisfação tem um custo terrível, simbolizados perder os olhos reais e ser substituídos pelos botões da cor que ela escolheria.
A importância da realidade vivida por Coraline em Outro Mundo oferece uma versão inicialmente perfeita de sua família, mas é uma armadilha. A valorização de sua vida e de sua família real, com suas imperfeições, em contraste com a perfeição ilusória e perigosa oferecida pela “Outra Mãe”.
Outro ponto analisado é quando a mãe de Coraline abre uma porta secreta, “cansada” dos apelos da filha, a mãe encontra uma chave que abri a porta secreta. E a filha ao adormecer encontra a passagem onde a levaria ao Outro Mundo, ou seja, a “Outra mãe”. Aqui cabe uma indagação: Uma mãe presente fisicamente seria ou se constituiria ausente simbolicamente [3].
O filme apresenta através de contrastes, a maternidade tóxica e controladora e a maternidade real e imperfeita. Mas não é somente no filme que está presente essa polaridade. Na clínica psicanalítica vemos mães que entram no polo do controle e dano a vida dos próprios filhos. Geralmente para elas os filhos são extensão de si, usam chantagem e depreciação para controlar, sufocam os filhos, e excluir o pai da relação com seus filhos.
A função paterna atua como um pedaço de pau na boca do crocodilo, separando a criança da relação fusional e simbiótica com a mãe [4].
No filme aparece uma cena que o pai do outro mundo é humilhado e desprezado pela “outra mãe”, mostra uma queda dessa função.
Na clínica psicanalítica ouvimos e vemos que a função paterna está sendo “derrubada” pela mãe.
Sabemos que a retirada da função paterna pode produzir dificuldades com limites e regras e também outras questões vida da criança.
A retirada da função paterna não significa apenas ausência física, mas a falha da operação simbólica que permite ao sujeito se estruturar psiquicamente, sair da fusão com a mãe e entrar no mundo social e cultural.
Para Lacan a não inscrição do Nome-do-Pai (foraclusão) pode levar a estruturação de uma psicose, pois a criança é expulsa das leis, da linguagem e da ordem simbólica [5].
No mundo real, os pais de Coraline são ocupados e incapazes de dar atenção á filha. Em contrapartida no Outro Mundo a “Outra mãe” oferece um suposto amor e uma vida melhor, como um amor possessivo e controlador, um amor psicotizante.
Para analisar alguns pontos da maternidade apresentada no filme buscamos a psicanalista Françoise Dolto, que nas páginas de seus livros, apresenta uma teorização de que a criança é sujeito desde o nascimento, é alguém que já fala pelo corpo e pelo desejo. A função da mãe é nomear o que a criança vive e dar sentido às suas experiências corporais [6].
O filme fica bem interessante nesse sentido, porque a “Outra mãe” entra nesse jogo simbólico de forma disfarçada. Quando Coraline quer comer a comida feita pela mãe, mas é o pai quem cozinha e faz o “lodo” assim nomeado por Coraline, uma comida com um aspecto ruim e de sabor não muito desejável para a menina. Nesse jogo de desejo é a “Outra Mãe” quem atende a esse pedido, fazendo um frango assado suculento e comidas gostosas e até o suco é perfeito levado até a menina de uma forma deslumbrante.
Enquanto a mãe verdadeira de Coraline é uma mãe que não permite que a filha brinque na lama, porque brincar na lama talvez, seria para essa mãe exaustivo. Tornando-se as tarefas domésticas mais longas e repetitivas.
Na casa de Coraline as tarefas domésticas são divididas entre o pai que cozinha e mãe que limpa a casa. Coraline ao brincar na lama geraria desordem e era isso que a mãe não esperava, pois tinha que dar conta dos trabalhos domésticos e de fora para escrever o catálogo para publicação.
Para a Mãe de olhos de botão, ou seja, “A Outra mãe”, fazia tudo aquilo que Coraline queira, satisfaz todas as necessidades e desejo da menina, até se sujar de lama. Ela parecia ser uma mãe totalmente atenciosa e carinhosa (o trenzinho com molho e o pedido especial do suco), além de sugerir brincar com a menina.
Na cena seguinte a “Outra mãe” realiza os desejos impossíveis de Coraline, desejo de rever os amigos, quando os amigos falam com a menina pelo porta-retrato e ainda um quarto superdivertido com bonecos que falam e uma cama muito bonita é apresentada a Coraline.
Para Dolto a relação mãe-criança exige presença afetiva, não disponibilidade total. A maternidade é encontro, não fusão e a “Outra Mãe” tem essa disponibilidade total [7].
Quando a Coraline conta para a mãe verdadeira o que aconteceu, a mãe supõe que a menina sonhou e sugeri ela ir conversar com alguém, ou seja, fazer algo para deixá-la trabalhar.
Para Françoise Dolto a maternidade se estrutura no desejo, não no instinto. As mães modernas vivem culpa por terem que dividir sua identidade entre trabalho, maternidade e vida pessoal. O risco não é a falta de amor, mas a confusão entre ser mãe e ser mulher.
A boa mãe para Dolto é a que constata a possibilidade de separação saudável. Isso inclui dizer não para a criança, permitir frustrações, reconhecer e autorizar o filho existir simbolicamente.
Uma mãe pode amar e cuidar muito, mas sem desejo, pode haver apagamento subjetivo da criança. A mãe não deve ser nem fusional, nem hostil, mas uma presença que acolhe, nomeia e permite a autonomia.
Para Dolto a mãe é aquela que fala, olha, deseja, significa e deixa o filho ser ele mesmo. A mãe é aquela que pode ser mulher, trabalhadora, desejante, sem se anular.
O desejo da mulher não coincide automaticamente com o desejo de ser mãe. Muitas dificuldades da maternidade tentam apagar a mulher em nome de uma maternidade perfeita.
No filme da Coraline aparece de forma muito clara, quando a mãe dos olhos de botão, apresenta uma maternidade perfeita apagando a figura do marido, suposto pai de Coraline, um homem manipulado e fraco. O desejo de ser mulher para a “outra mãe” fica em recluso no lugar de ser uma perfeita mãe.
Para Dolto a maternidade saudável faz a mulher continuar sendo sujeito, e no caso de “outra mãe” ela é exclusividade para a maternidade.
Françoise Dolto, em a causa das crianças (1985), apresenta uma reflexão profunda sobre o papel simbólico da mãe na constituição do sujeito. Para a autora, a presença física da mãe não é suficiente para garantir o desenvolvimento psíquico saudável do bebê, pois o que constitui o sujeito é a presença simbólica, isto é, a capacidade da mãe de reconhecer a criança como um ser desejante de linguagem.
Dolto afirma que muitas mães, embora estejam cotidianamente ao lado dos filhos, permanecem ausentes no simbólico, tratando-os como objetos de cuidado e não como sujeitos desejantes. Essa ausência simbólica impede a inscrição da criança no campo da linguagem e do desejo do Outro. Assim, “a criança sofre quando é tratada como um objeto de cuidado e não como um ser que fala, mesmo antes de saber falar, evidentemente que a função materna se realiza na escuta e na palavra dirigida a criança, e não apenas na presença física [8].
No filme Coraline e seu Mundo Secreto a mãe verdadeira de Coraline encontra-se psiquicamente indisponível, por exaustão. Dolto afirma que a presença real não substitui a presença simbólica – a Coraline precisava ser reconhecida como sujeito com seus desejos, necessidades, sentimentos e, não apenas “cuidada” com uma nova casa, alimentação, sono, etc.
A teorização de uma mãe presente e ausente paralelamente debate com outros autores como André Green, com a “mãe morta”, D. Winnicott, com a mãe “suficientemente boa”, e Lacan com o Nome-do-Pai e em sua teoria, e é Dolto que evidencia que a qualidade da relação mãe-criança e a possível inserir a criança em um discurso, na qual ela é ouvida e compreendida, para que se constitua um sujeito desejante.
A contribuição das obras de Françoise Dolto para compreensão da maternidade e da presença simbólica é importante para a clínica contemporânea com bebês e crianças. O filme apresenta uma compreensão no sentido de que a presença simbólica, feita em palavras, afeto, desejo e reconhecimento, é indispensável para a mãe que precisa vir a vida, e não fazer fusão ou deixar-se desligar do vínculo comunicacional, quando essa comunicação é falha ou contraditória com essa criança, e a criança necessita da presença afetiva dessa mãe, que nomea e acolhe angústias, transmitir limites e significações para essa criança. Embora toda a trauma do filme fosse sombria e assustadora, ao final acontece a reconstrução da capacidade materna (paterna) de simbolização. E a “outra mãe” é desconstituída do lugar de mãe [9].
No final Coraline é um sujeito desejante, amplia os seus vínculos afetivos e consegue realizar em comunidade o tão desejado plantio.
Nas histórias das “Coralines” na clínica psicanalítica, às vezes, não temos o mesmo desfecho do filme, pois as “mães crocodilos” permanecem devorando suas crias e o pai é anulado da vida dessa criança. Cria-criança numa Estrutura psicótica [10].
Para finalizar o texto, uso a citação de G.K. Chesterton. “Os contos de fadas são mais do que reais: não porque nos dizem que os dragões existem, mas porque dizem que eles podem ser derrotados” [11].
[1] Texto apresentado na 2ª Jornada de Estudos Salpêtrière Espaço Psicanalítico em 13/12/2025.
[2] Psicanalista e Participante dos Estudos do Salpêtrière Espaço Psicanalítico.
[3] LACAN, Jacques. Termos de autoria conceitual.
[4] LACAN, Jacques. O Seminário 17: O avesso da psicanálise (1969-1970). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.
[5] LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998.
[6] DOLTO, Françoise. A imagem inconsciente do corpo. São Paulo: Perspectiva, 2020.
[7] DOLTO, Françoise. A causa das crianças. Ideias e Letras, 2005
[8] MANNONI, M. A criança, sua doença e os outros.
[9] LACAN, Jacques. O Seminário 5: A relação de objetos (1956-1957). Rio de Janeiro: Zahar, 1999.
[10] LACAN, Jacques. Seminário 3: As psicoses (1955-1956). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
[11] GAIMAN, Neil. Coraline. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.




