Par ou ímpar: a escolha do engano![1]
Aristela Barcellos de Andrades[2]
Mais um ano, mais um semestre e mais uma escrita, dando início ao Sarau Poético de 2026. Nessa 7ª edição queremos dar as boas-vindas aos que conosco dividem e compartilham os seus pensamentos e os seus escritos, como também, aos que prestigiam com sua presença e escuta atenta os nossos devaneios poéticos. Nesses encontros, costumamos ser um grupo pequeno, porém de grande alento. Portanto, dessa vez pensei em escrever algo que me tocou no ano passado e deixei algumas frases já escritas, retomando para esse vigoroso encontro o que refleti sobre isso.
No sábado dia 11 de outubro de 2025, vejo em meu Instagram a foto de Diane Keaton e na hora me vem à pergunta: será que ela morreu? Sim, embaixo de sua foto estava a data de seu nascimento e a de sua morte. Expresso um: ahhh de lamento, gosto tanto dela, como se isso fosse um motivo para que as pessoas não morressem, uma boa e coerente atriz, enfim. Durante a semana seguinte no mesmo Instagram me deparo com um depoimento do amor de sua vida Al Pacino, que me toma de surpresa e de maneira forte, onde ele relata quase que sussurrando essas palavras: “Diane Keaton passou a vida toda esperando para que eu covarde crescesse. Não me casar com ela foi a decisão mais estúpida que já tomei, sim estou falando de mim mesmo. Ela costumava dizer: ‘Al, seus olhos seguram todas as luzes de Nova Iorque!’ mas eu só olhava para o meu trabalho, nunca olhava para ela, tinha medo de que sua luz fosse muito brilhante porque poderia expor minhas fraquezas. Ela me chamou do homem mais livre que ela conhecia. Que piada um homem com muito medo de admitir que está apaixonado, que tipo de liberdade é essa? Ela aparecia no set com girassóis e sussurrando poemas de Neruda em meu ouvido e eu, apenas dizia: Você decorou suas falas? Ela queria uma casa que eu nem conseguia abrir uma porta. Eu pensei que a solidão era o combustível da arte. Até que seus passos desapareceram e eu percebi que estava guardando um armazém vazio, tão oco que nem sequer tinha um eco. Anos depois, ela escreveu em suas memórias: ‘Ele não precisava de mim’. Aquela mulher sempre protegeu meu orgulho, mas na verdade era eu que precisava tanto dela que eu não poderia dizer isso em voz alta. E ela partiu… sem ao menos dizer adeus! Ou espera! Eu teria ficado aqui esperando por ela”. Será?
Há alguns anos me dedico a leituras de correspondências e cartas de amor de casais importantes na história, entre eles Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre[3], Hanna Arendt e Martin Heiddeger[4], Albert Camus e Maria Casarès[5], Frida Kahlo e Diego Rivera[6], por exemplo. Sempre me chamou a atenção a questão de mulheres fortes, guerreiras em suas carreiras intelectuais se relacionarem com homens, também fortes intelectualmente, porém com questões muito diferente das delas, caminhos extremamente contraditórios e frágeis subjetivamente. Hanna, por exemplo era uma mulher alemã judia e Heiddeger esteve ao lado de Hilter, como isso é possível? Ele disse que todos os judeus deveriam ser mortos. Como permanecer enamorado de alguém que quer o seu fim? Sartre um homem livre que se envolvia com várias mulheres, não era fiel amorosamente a Beauvoir. Já ela se relacionou com o escritor norte americano Nelson Algren, entre o entrevero amoroso com Sartre. Algren foi quem a mostrou os prazeres na cama, como também, um intelectivo que priorizava o conhecimento, mas não foi o suficiente para deixar a lealdade intelectual que ela tinha com Sartre. Dei-me conta disso em um filme de 2006 chamado Os amantes do Café Flore, em que Sartre de uma forma manipuladora inscreve Beauvoir em universidades dos EUA para ela dar palestras e ele ficar em Paris com o seu novo amor. Ele só não contava que ela conhecesse Algren e se apaixonassem e que ali encontrasse alguém que fizesse questão do prazer dela. No filme fez parecer que ela teve orgasmo pela primeira vez e com ele, mostrando a ela mesma a falta de empatia de Sartre. Beauvoir e Algren conversavam, saiam juntos, transavam, ele foi para Paris com ela, mas nada disso foi o suficiente frente ao encontro intelectual existente com Sartre, ali eles de fato faziam um par, ali havia lealdade.
Da mesma forma, Frida permanece na relação de lealdade com Rivera, e quando ele rompe com isso ao se envolver com a irmã dela Cristina, isso se rompe, a fidelidade nunca foi seu forte. Passados alguns anos em que ela foi viver sua vida na Europa e nos EUA, ela retorna e ele se dá por conta do que fez, eles voltam, mas por quê?
Ainda estou lendo as cartas de amor entre Camus e Casarès, é uma beleza poética sem igual, amorosa e quase difícil de acreditar que possa existir ou ter existido um amor assim. Declarações, reivindicações de amor que Camus fazia a Casarès, em um quase desespero para conseguir respirar enquanto as cartas dela não chegavam. Lembrando que esses exemplos se deram em meio a guerras, a falta de liberdade, nada é por acaso.
Lacan em um pós-guerra, na lição de 23 de março e na de 26 de abril de 1955 no Seminário 2[7] sobre o “eu” traz sua construção sobre o jogo de par ou ímpar onde ele decorre sobre o ganhar ou perder. Quase num processo adivinhatório para explicar de uma forma ilusória como algumas pessoas acreditam ter controle sobre suas escolhas. Lidamos diariamente com apostas e Al Pacino ao não aceitar se casar com Diane, ao não fazer uma aposta, ou seja, ao acreditar que ele tinha o controle, por exemplo, achou que ali havia escolhido algo bom e que no jogo do par ou ímpar ele havia ganho a solidão que iria ajudá-lo em sua carreira. Ao “ganhar” ele teve a maior perda de sua vida, segundo suas próprias palavras. Isso se deve, a meu ver, a equivalência que Lacan cita nessa lição entre ganhar e perder. Escolher melhor a sua jogada poderia ter feito ele de fato ganhar, tanto no amor, como na profissão, pois elas não estão separadas, trata-se do amor, do amor por algo ou por alguém. Escolher também pelo amor de sua vida, que não teve mais tempo de esperá-lo, seria renunciar a alguns momentos para decorar falas nos sets de filmagem dos filmes que fez, ele ganhou a fama, mas ganharia de qualquer jeito, pois ele não sacrificaria o seu fazer. Curioso, porque ela também era atriz, ela também renunciava a algumas coisas para decorar as falas e estudar os roteiros. Ela só não renunciou de si, ele sim, ele fez uma aposta que não foi tão satisfatória, pois não renunciou ao brilho externo. Ele não estava atento o suficiente no seu jogo de azar. Tanto que não houve tempo de se despedirem, já que ele não precisava dela, ela tomou o seu rumo e foi, foi para sempre.
Escolhas requerem perdas, requerem renunciar a algo. Há pessoas que acreditam que possam ter tudo, tudo aquilo que desejam, mas isso é da ordem do impossível. O tema de nosso Sarau continua sendo “Fale sobre elas”, sobre as mulheres e como elas se colocam nesse mundo de meu Deus. Como agem frente a cada caminho e a cada tropeço. Amores esses que costumam serem interrompidos de formas terríveis, Camus faleceu num acidente de carro; Hanna deixou de ser amante de Heidegger muito antes de suas falas perversas em relação ao nazismo; Rivera não foi mais infiel por falta de espaço e Frida morreu praticamente em seus braços sem conseguir se movimentar fisicamente; Diane se foi sem dar tchau àquele que nem queria sua presença por medo de ser ofuscado; Beauvoir não suportou alguém amá-la pelo o que ela era, ela queria a lealdade intelectual, alguém com quem ela conseguisse conversar sobre aquilo que a interessasse, que a instigasse a pensar e assim, vice e versa.
Desejos, escolhas, demandas, o que nos faz levantar todos os dias, além das contas as serem pagas e de um bom café da manhã?
Fica a pergunta e a possível instigação a esse tema… que possamos decorrer em pensamentos e falas…
Muito obrigada!
[1] Texto apresentado na 7ª edição do Sarau Poético do Salpêtrière Espaço Psicanalítico em Santa Maria/RS.
[2] Psicóloga, Psicanalista e Membro Fundadora do Salpêtrière Espaço Psicanalítico em Santa Maria – RS.
[3] HAZEL Rowley. Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre – Tête-à-Tête. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.
[4] ARENDT, Hanna, HEIDEGGER, Martin. Hanna Arendt e Martin Heidegger – Correspondência 1925 – 1975. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
[5] CAMUS, Albert, CASARÈS, Maria. Albert Camus e Maria Casarès – Escreva muito e sem medo – Uma história de amor em cartas 1944 – 1959. Rio de Janeiro, Record, 2024.
[6] BERNARD, Caroline. Frida Kahlo e as cores da vida. Rio de Janeiro: Tordesilhas, 2020.
[7] LACAN, Jacques. O Seminário – livro 2 – o eu na teoria de Freud e na técnica psicanalítica. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.





